colunistas do impresso

O último dia do Augusto

Sentado com amigos numa mesa perto do caixa, comecei a analisar o comportamento das pessoas.

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Há dois anos, numa quinta-feira, 31 de janeiro de 2019, o Restaurante Augusto cumpriu seu último dia de vida. Abriu as portas para servir o almoço, atendeu a todos, fechou a última conta, passou a régua e encerrou os trabalhos. Em definitivo. Tudo terminava ali. O local que havia sido referência para santa-marienses e forasteiros saía de cena. Nesse dia, muita gente foi se despedir. O Augusto lotou. Era o adeus a um amigo em forma de restaurante. O último suspiro de uma vida de 50 anos.

No dia derradeiro, havia uma carga forte de sentimentos. Emoção, tristeza, gratidão e saudosismo. Mas principalmente de perda. Estávamos meio que velando o Augusto. Fazendo um cortejo. Prestando nossa última homenagem. Aproveitando os instantes finais antes que fechassem a sua tampa, ou melhor, as suas portas.

Sentado com amigos numa mesa perto do caixa, comecei a analisar o comportamento das pessoas. Conversavam bastante, faziam selfies e tiravam fotos com os garçons e com os proprietários. Era interessante de ver. Somado a isso, lembro que o repórter Renato Oliveira, da Rádio Imembuí, entrou ao vivo do local, fazendo entrevistas e relatando os últimos batimentos do coração do Augusto.

Transcorria o almoço terminal quando, lá pelas tantas, os clientes foram se levantando das cadeiras. Em poucos segundos, todos ficaram em pé. As vozes foram se calando. O silêncio tomou conta do ambiente. Iniciou-se, então, uma salva de palmas quase interminável. Era o agradecimento coletivo. A reverência uníssona. Algo de arrepiar. Palmas que, por certo, ecoaram lá no céu, homenageando, também, as inesquecíveis figuras de Augusto Martins, o fundador, e Marco Fank, genro e também proprietário.

Nesse instante, olhei para o meu amigo Augustinho. Acusando o golpe, marejou os olhos. A ficha começava a cair. A história iniciada por seu pai escrevia o último capítulo. De forma emocionante.

Meus olhos presenciaram, ainda, cenas que não imaginara ver. Algo, no mínimo, curioso. Na saída, clientes levavam para casa pratos, talheres, copos e guardanapos. Como se fossem troféus. Como se fossem pertences íntimos de um ente querido. Levavam sem maldade. Tão somente pela vontade de guardar um pedacinho do Augusto. Em meio a tudo isso, meu parceiro de mesa e vizinho de página no Diário, Péricles Lamartine da Costa, mais conhecido por Neco, virou-se para mim e disse: quem sabe criamos uma música para o Augusto? Achei a ideia esquisita. Na hora, não dei muita bola. Fazer música para um restaurante soava estranho. Mas fiquei pensando no assunto. Pensando até o momento em que vi alguém saindo faceiro com uma toalha de mesa. Sim, uma toalha de mesa. Ato contínuo, virei pro Neco e disse: que baita ideia tu deste!

A felicidade e a realização com que as pessoas levavam para casa um fragmento do Augusto revelava que o Neco estava certo. Através da arte, em forma de música, poderíamos retratar um pouco desse sentimento. Assim, junto com ele e o amigo Ditmar Strahl, compusemos "Cardápio de Lembranças", gestada dessa forma e com a pretensão de manter viva a lembrança do restaurante.

Passados dois anos, restam recordações. O tempo não apaga a saudade. Relembrar é viver. E viver é relembrar. Santa Maria ficou viúva de um local que foi reduto de encontros familiares, reuniões políticas, de negócios e do bom convívio entre amigos. Santa Maria ficou viúva da boa gastronomia, do chope de colarinho e da magia dos salões. Santa Maria, ficou viúva de um pedaço da sua história.


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