colunista do impresso

Diante da dor dos outros

Se você estiver aberto a ouvir, a escutar atentamente, talvez possa, como eu, aprender com os outros, e vivenciar outras perspectivas

De acordo com o dicionário, ter privilégios é ter vantagens (ou direitos) atribuídos a uma pessoa e/ou grupo de pessoas em detrimento dos demais. Sendo assim, posso dizer que nasci, e sou até hoje, privilegiada. Venho de uma família com condições econômicas, culturais e sociais favoráveis. Jamais senti exclusão pela cor da minha pele, sexualidade ou qualquer outra condição que apresento.

Quando criança, convivi com pessoas que tinham boas condições socioeconômicas e nem imaginava que existia gente que vivia com enormes dificuldades. Sequer sabia que existissem outras formas de vida. Como Edward Said disse certa vez, quando você se senta sempre numa posição privilegiada quando vai ao teatro, nas fileiras com maior visibilidade e conforto, você não consegue perceber todo o contexto do espetáculo.

Mas, tive sorte: cursei Enfermagem. Essa profissão fascinante proporcionou experiências que me permitiram enxergar outras pessoas, até então para mim invisíveis. Fui seduzida a trabalhar com essas pessoas: vidas precárias, mas que foram me ensinado outras maneiras de pensar e de viver. Escutei suas narrativas: mulheres e crianças em situações de violência, idosos sem condições de se locomover e sem dinheiro, pessoas com patologias envoltas de preconceitos.

Em determinado momento, acabei por me deparar com as travestis e mulheres trans: nas ruas, durante as campanhas de prevenção da Aids, na década de 1990. Quando ia escutando suas histórias, fazia comparação com minha própria experiência. Enquanto frequentei as melhores escolas, elas abandonaram precocemente o universo escolar. Os motivos? Quando se percebiam "diferentes" e iniciavam o processo de feminilização, os coleguinhas faziam piadas, a professora não sabia como agir e isso gerava muitos desconfortos e violências. Outro problema era a hora do banheiro. Optavam pela infecção urinária com receio de atravessar o corredor. Enquanto minha família me cuidava com afeto e atenção, elas conheceram as primeiras violências no que deveria ter sido lar.

Sem escola e família, o jeito era buscar a sobrevivência em outras paradas. Onde ir? Se tivessem habilidade para lidar com estética correriam menos riscos; caso contrário, a rua seria a opção mais viável, às vezes a única. E pelas ruas elas se vão: sabendo todos os dias, que talvez não voltem para casa. O mesmo cliente que busca pelos seus serviços na noite, no dia seguinte joga pedras e grita absurdos.

Minha experiência me possibilitou ver outras perspectivas. E tenho orgulho de dizer que acolhi e fui acolhida por elas. Fiz grandes amizades. Nessa semana perdemos mais uma travesti assassinada em Santa Maria. Verônica era uma das líderes do movimento LGBTQI+ da cidade. "Mãe loira", como era conhecida, abrigou em sua casa várias outras meninas com percursos de violência semelhantes aos dela. Era conhecida em seu bairro por adquirir materiais escolares para as crianças carentes. Sempre repetia que o seu maior sonho era de ver as crianças permanecerem nas escolas, para terem uma vida melhor. Mesmo sem muita escolaridade, ajudava as meninas do pensionato - o objetivo era economizar para construir caminhos possíveis e reivindicar respeito. Verônica foi morta por um pretenso cliente. Ao não aceitar o valor oferecido, discutiram e foi atingida por uma faca. Os sonhos da Verônica ficaram espedaçados na calçada da Avenida Presidente Vargas, próximo de uma escola, onde talvez outras crianças sigam os seus sonhos com um pouco mais de sorte.

A comunidade LGBTQI+, buscando visibilidade para ampliar o debate sobre tamanha violência, sensibilizaram os vereadores para que seu velório fosse na Câmara de Vereadores. Afinal, a Câmara de Vereadores é, como dizem, a casa do povo - a casa de todo o povo e não apenas dos privilegiados, dos endinheirados, dos que têm casa e conforto e que tiveram boas escolas.

Escutei rumores de pessoas irritadas com tal homenagem. Fiquei então pensando: se você ficou irritado(a) com o fato de a casa do povo se abrir para alguém como Verônica, convido para que saia um instante do seu mundo. Conheça um pouco dessas outras perspectivas e formas de vida. Se você estiver aberto a ouvir, a escutar atentamente, talvez possa, como eu, aprender com os outros, e vivenciar outras perspectivas. Possivelmente, dessa forma, você possa sair da indiferença diante a dor dos outros. Indiferença que é sempre o alicerce das violências e regimes autoritários. 


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