diário da esperança

'Devemos ser resilientes', mas você sabe o que é resiliência?

Como se tivesse perdido uma parte, ganhou outras e descobriu potencialidades

Mariana, Andressa e Carlos eram jovens que voltavam da balada quando sofreram um grave acidente de carro. Mariana foi a única que teve ferimentos leves e não precisou de internação. Já os outros dois internaram tiveram sequelas. Após esse fato, quem deles será que pode ser considerado resiliente? Vou contar essa história, e tu podes tirar as próprias conclusões.

Apesar de Andressa ter tido várias complicações físicas, não se abalou com o que aconteceu. Falava do evento como quem conta o que comeu no café. As pessoas invejavam o jeito dela superar o trauma. Era forte, mas insensível. Depois da sua recuperação física, nada mudou na sua vida, e seguiu adiante.

Carlos, que tinha convidado as amigas para a festa, ficou muito triste. Achou que se não fosse o convite, nada teria acontecido. Por uns dias, não queria conversar com ninguém, precisava de um tempo. Até que se abriu com a família e amigos, retomou atividades habituais e a dor foi passando. Pensou que podia ter morrido, ou ter perdido as amigas. Passou valorizar mais quem amava, e deixar de lado aquelas picuinhas que tanto incomodavam. Em poucas semanas, sentia-se muito bem.

Passados seis meses, Mariana tinha crises de ansiedade e choro. Teve que fazer tratamento psiquiátrico e psicológico. Era ela quem dirigia o carro naquele dia. Ruminava um pensamento de que era ela quem devia ter se ferido, mas saiu praticamente ilesa. Sentia-se culpada pelo acidente e condenou-se a sofrer, deixando de conviver com as pessoas amadas. Depois de uns anos de tratamento, esses pensamentos passaram e conseguiu retomar a vida. Tornou-se mais cuidadosa, afetiva, compreensível e sempre tinha uma palavra sábia para aconselhar. Como Carlos, passou a dar mais valor às coisas realmente importantes na vida. Mas não voltou a dirigir, e, às vezes, ainda acordava com pesadelos.

E aí? Quem deles é resiliente? Talvez, o senso comum apontaria para Andressa. Apesar das divergências da literatura sobre o termo resiliência, há consenso entre os principais pesquisadores da área no mundo, que diriam que Andressa não é resiliente, mas sim, resistente. "Casca grossa", como diria o gaúcho. Para essas pessoas nada muda, mesmo com experiências muito difíceis. Resiliência é conseguir sentir os acontecimentos, sentir a perda, a dor, a angústia, perder umas noites de sono, repensar a vida e com o passar dos dias a semanas, ir retomando um estado de equilíbrio. Pessoas resilientes amadurecem com as experiências, e conseguem tirar uma lição positiva. É o caso do Carlos.

Mas e a Mariana? É ou não resiliente? Adoeceu psiquicamente, e mesmo melhorando, ainda manteve alguns sintomas. Essa é uma das formas da resiliência, que envolve reconfiguração. A pessoa não é mais a mesma, como se tivesse perdido uma parte. Mas ganhou outras e descobriu potencialidades que não sabia que tinha. Resiliência não é o oposto de sofrimento. Bem pelo contrário, é no sofrimento que se vê quem é, ou não, resiliente.

Texto: Vitor Crestani Calegaro
Psiquiatra e professor da Universidade Federal de Santa Maria


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