colunista do impresso

Darcy Azambuja, o galpão e nossas coxilhas

De repente, por conta da nossa literatura, olho para o céu e grito: Bah tchê! Até de repente!

Somos oito, Darcy Azambuja e eu! Nascemos no Rio Grande do Sul - Encruzilhada e Santa Maria - (dois), trabalhamos em torno da constituição e das leis (quatro), ele professor na UFRGS, eu na USP (seis) e produzimos literatura (oito).

Embora nunca tenhamos nos encontrado por aqui, um dia estaremos juntos. Ele se foi antes de mim, em 1970, e eu ainda estou por aqui. Mas no futuro - não tenho ideia de quando -, certamente nos veremos. Tomaremos chimarrão um ao lado do outro, lá no céu!

Ele se foi, mas está ao meu lado, aqui no galpão, as coxilhas mais adiante. Busco e rebusco outros livros seus - A Prodigiosa Aventura e Romance antigo - mas, por conta dos meus 80 anos, não os encontro. Para me acalmar relembro que o de sua estreia na literatura - No Galpão- foi publicado em 1925, quando ele tinha 22 anos! Agora o tenho em minhas mãos, Edição da Livraria do Globo - Barcellos, Bertaso & Ca. No Galpão (Contos Gauchescos) em memória de João Simões Lopes Netto.

Leio repetidamente esses contos, o último deles - Passo Brabo - fascinando-me por conta do seu final: "Pois, a cara d'um cavallo não é como a da gente: é mais dura, não se sabe quando elle está alegre ou quando está triste. Mas os olhos, os olhos sim: esses falam, esses mostram. Os olhos do tostado estavam assim como os de quem olha de longe. Eu reparei. Mas, que havia elle de estar olhando longe, ali dentro da estrebaria? Não. É que elle estava sentindo o mimo e a gratidão do homem. Sentindo, como não?". A grafia do texto do Darcy é exatamente essa, cavalo e ele com dois éles!

Repito: ele se foi, mas está ao meu lado, aqui no galpão, as coxilhas mais adiante. Exatamente Coxilhas, seu outro livro de contos publicado em 1956. Um livro também fascinante, no qual reencontro nosso outro amigo, o Negrinho do Pastoreio!

Um conto maravilhoso, de verdade, que eu gostaria de aqui reproduzir em seu todo. Como não há espaço para tanto, limito-me a lembrar que - como nos conta o Darcy - o Negrinho iria dormir na escuridão e a luz do biquinho de vela que trazia consigo de repente cresceu. Cresceu, cresceu, cresceu até que surgiu uma claridade limpíssima e seu pai e sua mãe o alcançaram, galopando em dois cavalos. O final do conto é encantador: "O pai apeou-se, abraçou-o e, levantando-o nos braços, sentou-o no colo de sua mãe.

O Negrinho do Pastoreio, que parecia ter pressa, guasqueou o tordilho, gritando alegremente:

- Vamos embora, vamos embora!

E todos galoparam, dentro da luz maravilhosa, naquela estrada tão linda, que ia muito longe, muito longe... até o céu...".

De repente, por conta da nossa literatura, olho para o céu e grito: Bah tchê! Até de repente!

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