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Crise militar

Agora, a uma crise civil, iria se somar uma crise militar com potencial explosivo

O governo Bolsonaro é uma verdadeira fábrica de crises. Pior do que isso: para debelar uma crise, cria outra maior ainda. Foi assim com o Ministério da Saúde que, em meio a pior crise sanitária da nossa história, houve troca de ministros quatro vezes, sempre um pior do que o outro. Neste caso, deve ser acrescentado o fato de que o último ministro demitido ter sido um general da ativa do Exército. Supostamente especialista em logística, encheu o ministério de militares e, após cerca de dez meses à frente da pasta, Pazuello deixou o cargo com o sistema de saúde em colapso.

Diante do caos na saúde, falta de oxigênio, respiradores, remédios para entubar pacientes, leitos hospitalares, filas de espera nas UTIs., etc., o Congresso passou a pressionar pelo atraso na compra de vacinas. A "bola da vez" para ser demitido passou a ser o ministro das Relações Exteriores (Ernesto Araújo), representante do chamado grupo ideológico no governo. Para fugir à responsabilidade pelo número de mortes cada vez maior (média diária de 3.000 mortes), Bolsonaro procurou se proteger usando como escudo as Forças Armadas (FA). Mas se deu mal: ao tentar enquadrar o ministro da Defesa (general Azevedo e Silva), substituído pelo general Braga Netto (ministro da Casa Civil), e o ministro do Exército (general Edson Pujol), acabou sendo enquadrado.

O que Bolsonaro não esperava é que todos os demais ministros militares reagiriam com uma renúncia coletiva. Agora, a uma crise civil, iria se somar uma crise militar com potencial explosivo. Azevedo e Silva, ao deixar o cargo, escreveu uma carta curta em que reforçava o papel das Forças Armadas como "instituição de Estado e não de governo". O que foi entendido como uma resposta direta ao presidente Bolsonaro, que costuma usar a expressão "meu exército". Bolsonaro queria punir Azevedo e Silva e Pujol por não se manifestarem contra a decisão no ministro Fachin (do STF) de anular a sentença de Lula.

Ao substituir o ministro do Exército, Bolsonaro teve que se sujeitar à ameaça de rebelião do Alto Comando, que exigia o cumprimento do critério de antiguidade. Assim, a Bolsonaro não restou outra atitude senão "enfiar a viola no saco" e aceitar a indicação do general Paulo Sérgio, que tem uma posição totalmente oposta a sua em relação ao tratamento da pandemia e que, como responsável pela gestão de Pessoal do Exército, conseguiu baixar a taxa de mortalidade para 0,13%, contra 2,5% da população em geral.

A atitude do novo ministro da Defesa, como preposto de Bolsonaro, que resultou em demissão de todo o alto escalão militar - sem nenhum motivo real, mas apenas para criar um factoide - certamente trouxe um desgaste perante seus pares. A exigência do Exército em cumprir o regulamento na troca do ministro, mostra um endurecimento nas relações das FA e o governo. Não se vislumbra um risco de ruptura tão forte como aquela que aconteceu em 1977, quando o general Ernesto Geisel "emparedou" Sylvio Frota, ministro do Exército na época, que era contra a transição "lenta, gradual e segura" para a democracia e pregava um endurecimento do regime militar nos quartéis.

Em entrevista, quando já não era mais presidente, Geisel disse que Bolsonaro não era para ser levado a sério e que, inclusive, tinha sido um "mau militar". O ex-presidente referia-se ao fato de Bolsonaro ter sido processado e preso em 1987, após ser revelado um plano, pela revista Veja, dele e de outro militar, de jogar bombas nos quartéis para protestar contra os baixos soldos dos militares. Bolsonaro entrou com recurso junto ao Superior Tribunal Militar (STM) e acabou sendo absolvido por falta de provas. Mas teve de deixar a corporação.

O resto da história é conhecido. Bolsonaro, com base nesse episódio, apropria-se do discurso de "representante da classe militar" e, com os votos dessa categoria, consegue reeleger-se por 27 anos como deputado federal. Durante esses anos todos, teve apenas dois projetos aprovados pela Câmara, mas não abandonou o sonho de tornar-se ditador, como mostra a sua recente tentativa golpista para tirar o foco da tragédia na saúde.

O texto da ordem do dia de 31/3, do ministro Braga Netto, exaltava para "celebrar" os 21 anos da ditadura militar (1964-1985), que deixou um saldo de 434 mortos e desaparecidos. Ele pode ter suas razões, pensando como militar. Como civil, prefiro celebrar os 36 anos da volta da democracia.

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