colunistas do impresso

Almas sombrias*

É estarrecedor constatar que há pessoas que não saíram das trevas. Vivem na sombra sem buscar a luz

Dia desses, o Diário de Santa Maria registrou em uma de suas redes sociais mais uma morte na cidade por Covid-19. Ao ler a notícia, percebi que se tratava de uma pessoa com mais de 90 anos. Me saltou aos olhos os comentários de desprezo e de deboche, os quais falavam em prazo vencido se referindo à vítima.

Não costumo interagir em postagens com abrangência tão ampla. Gosto de interagir em condições de respeito à divergência, ao diverso. Gastar energia com o que não enriquece, não dá prazer, não induz à reflexão, não vale a pena. Naquele dia resolvi continuar a bisbilhotar. Percebi que, na opinião dos comentaristas, aquela morte não merecia sequer a contabilização. O número não deveria nem fazer parte das estatísticas.

A vida aos 90 anos já estava por um fio, independente da infecção pelo coronavírus. A frieza e a naturalidade eram assustadoras. É decepcionante ter o sentimento de que a humanidade deu errado. É estarrecedor constatar que há pessoas que não saíram das trevas. Vivem na sombra sem buscar a luz. A dureza daquelas palavras me chocou profundamente. Na busca de posturas diferentes para acalmar meu coração - todas as vidas são importantes - continuei a leitura.

Porém, me deparei com mais um comentário cruel e surpreendente, pois vinha de um idoso. Ele, igualmente aos anteriores, desdenhava a importância daquela vida. Debochava, pois a fragilidade é inerente a um quase centenário. Meu coração sentiu mais uma apunhalada. Me coloquei no lugar de um familiar ou de amigo lendo tantos absurdos e desumanidades.

Pensei naquela pessoa ali anônima, mas que não era. Quem sabe criou filhos e netos e até realizou coisas boas para a comunidade? Foi quem sabe um médico ou uma enfermeira que tantas vidas cuidou? Foi uma engenheira ou um pedreiro que fez casas que abrigaram famílias, sonhos? Foi quem sabe uma cozinheira ou o varredor de uma praça e, amava o que fazia?

Foi um agricultor ou uma professora que trouxe alimento e sabedoria às pessoas e às almas? Ou foi, simplesmente, um avô ou uma avó que tantos abraços e sorrisos distribuiu, amenizando com a sabedoria inerente aos mais velhos, dores e medos? Os povos originais têm em seus idosos, a ligação com a ancestralidade, com a sabedoria. O respeito a este saber que o tempo e a vida trouxeram é um legado tratado com reverência e admiração. Aos mais jovens, cabe absorver o conhecimento para que ele não se perca, valorizando o saber e a experiência.

Estamos perdendo nossa essência. A perda de vidas, de histórias, de sonhos que têm nome e sobrenome deveria doer, pois é o silenciar de uma existência. Quanta dor me provocou aquela notícia e aquele vasculhar! Amor ao próximo, empatia é essencial à vida em sociedade. A pandemia é uma oportunidade de transformação, porém me convenço cada dia mais, para os bons - àqueles que colocam amor à frente do ódio, respeito à frente do deboche e vida à frente da morte.

*Este texto foi originalmente publicado na página 4 da edição de sexta-feira, 4 de setembro de 2020

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