sociedade

Pós-mentira

Colunista Guilherme Howes fala sobre mentiras distribuídas como verdades

Em 2016, a Oxford Dictionaries, da Universidade de Oxford elegeu o vocábulo "pós-verdade" como a palavra do ano na língua inglesa. Ela também é certamente, uma palavra central para pensar as circunstâncias que vivemos no Brasil de hoje. Entretanto, por aqui, subvertemos a expressão inglesa, extrapolamos seu significado, esgarçamos seus limites e, possivelmente, tenhamos instaurado, assim, a pós-mentira!

Na origem, a expressão "pós-verdade" foi usada pela primeira vez em 1992 pelo dramaturgo sérvio-americano Steve Tesic e designava uma situação em que na hora em que se desenha a opinião pública, os fatos objetivos importam menos que nossas crenças e valores. Mas o que é mais grave é o seu uso político, pois é uma política pós-factual. Equivale a dizer que não importa se algo é verdade ou não, mas o tanto de impacto que pode causar antes de ser verificado ou comprovado. Depois do estrago feito vem a se saber que não era verdade, que se tratava de mentira travestida de verdade, mas aí o estrago já está feito, cumpriu sua função!

A questão, portanto, é que não se trata de pós "verdade", mas de pós "mentira", pois o que se comprova post factum é a sua inveracidade e não sua veracidade. Mas por que aceitamos isso? Por que convivemos com isso? Por que tantos acreditaram, por exemplo, no "kit gay" ou na requentada ameaça comunista? Mentiras distribuídas como verdades e em escala industrial, responsáveis diretas pela ascensão da barbárie ao poder. Como isso foi possível?

Uma narrativa judaica talvez ajude a responder. Ela conta que certa vez, a mentira e a verdade se encontraram. A mentira disse para a verdade: "Que dia lindo!" A verdade olhou para o céu desconfiada, mas percebeu que estava mesmo um lindo dia de sol. Elas andaram um pouco e chegaram até uma fonte, quando a mentira a convidou para se banharem. Novamente incrédula a verdade conferiu a água, achou bastante aprazível e aceitou o convite para o banho. Despiram-se e entraram na água. Percebendo a verdade distraída, a mentira saiu da água, vestiu-se com as roupas da verdade e foi-se dali. A verdade, por sua vez, recusou cobrir-se com as vestes da mentira. E por não ter do que se envergonhar, saiu a caminhar nua pelas ruas e vilas.

Deve ser por isso que muitos de nós se recusam a encarar a verdade, pois ela põe a nu nossas crenças e valores. Preferimos agir hipocritamente escondidos em "pós-mentiras" e fakenews, desde que vestidas de verdades. Sem elas sentiríamos vergonha de aplaudir mitos idiotas e falsos heróis, ficaríamos constrangidos diante da nudez de nossas mentiras imediatas; seria insuportável não ter como justificar nossas escolhas, nossos ódios e preconceitos.


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