cultura

Um relatório para uma pandemia

Colunista Camila Vermelho fala sobre o Campus Open Mapping, no qual performou em um projeto audiovisual em video mapping

Chegou o mês de início da Primavera no Hemisfério Sul! E o começo dos poucos mais de noventa dias para a chegada de 2021. Mas, em comparação a anos anteriores, este setembro é bem inabitual. Sobretudo, por fazer parte de um divisor de águas de práticas de cuidados pessoais e coletivos, em decorrência do vírus SARS-COV-2. Fenômeno este que já dura meio ano!

Coincidentemente, março foi a última vez que escrevi aqui, na Coluna de Cultura, ou seja, há seis meses. Para falar sobre um evento artístico de caráter público, que eu jamais imaginaria que seria uma de minhas últimas aparições em grupo na cidade, em 2020: o Campus Open Mapping, no qual performei num projeto audiovisual em video mapping, feito em parceria com o artista Elias Maroso e intitulado "Um relatório para uma academia", a partir de texto homônimo de Franz Kafka (1883-1924).

Foto: Carlos Rangel (Divulgação)

Na performance, dei corpo e voz a Pedro Vermelho, que demonstra para uma academia de cientistas o seu sucesso em deixar de ser macaco e transformar-se em homem. Enfim, uma saída possível de sua anterior situação encarcerada. Porém, uma saída humana e previsível, como muito bem demonstrado por Pedro através da leitura de um relatório. Apenas um relatório. Menos de uma semana depois da apresentação, iniciou-se o isolamento social na cidade e no Brasil.

De la para cá, tantas coisas aconteceram. E eu poderia relatá-las de diversas maneiras, seja sobre as implicações do distanciamento social, sobre os desafios da arte e da cultura em tempos pandêmicos, entre outros assuntos. Inclusive, o reconhecimento artístico do Elias Maroso, que concorreu e ficou entre os dez artistas mais votados para o prêmio nacional PIPA Online 2020.

Mas preferi e decidi parar e procurar outra saída. E repensar muito, para evitar reproduzir lugares comuns aos quais o Coronavírus pode levar. Um desafio

urgente. Por isso, na contramão desses tempos de hiperconectividade enquanto uma das alternativas de ocupação dos vazios de contatos físicos, optei pela desconexão. Um afastamento de Santa Maria, de pessoas e, também, de redes virtuais. Bem, não me tornei uma eremita, mas pude afastar-me consideravelmente de tudo. Um exercício de desconexão.

Foto: Carlos Rangel (Divulgação)/

Por isso, hoje escrevo, mais de 180 dias depois, para fazer o meu relatório, honrando o personagem Pedro Vermelho. Um relatório para uma pandemia. Com o fim de compartilhar um pensamento, uma constatação, quiçá uma ou mais questões: o quanto um ser invisível, um vírus, pode nos colocar diante de outros seres que, conforme a perspectiva, podem ser nossos inimigos ou aliados: nós mesmos.

O mundo, com seus recursos, necessidades, conflitos e desafios, sempre esteve aqui. Contudo, as saídas buscadas e encontradas, ainda mais dilatadas pelo desespero da pandemia, ultrapassam o passado, o aqui, o agora e o futuro. E desafiam-nos a buscar reconexões mais profundas.

Para que o mundo de hoje e de amanhã não apresente apenas um compilado de relatórios e mais relatórios previsíveis. Tampouco relatos nostálgicos de um passado melhor que talvez não existiu e, menos ainda, voltará a existir. Mas, sim, possibilidades dignas e comprometidas de lidar conosco e com todos, em direção a um mundo mais possível de se viver e mais conectado de fato.

Foto: Carlos Rangel (Divulgação


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