culura

A agenda do galpão e os abacates

Colunista Camila Vermelho relembra memórias do passado

18.398


Quando eu era pequena, morava numa casa de madeira, que tinha nos seus fundos um galpão rudimentar, defronte a um grande forno de barro, que era pouco utilizado. Não sei porque, mas naquela época, num fim de tarde, colhi os pequenos e imaturos frutos do abacateiro da vizinha e os dispus enfileirados nas bordas do forno.

Não preciso nem dizer que fui questionada pelos meus pais. Afinal, por que colher as frutas antes do tempo? Eu simplesmente não soube responder por aquele ato completamente inútil.  Mas confesso que aquilo me deleitava, em ver, silenciosamente, aqueles abacatinhos verdes e brilhantes, dispostos em simetria! Imaginava que eram hordas de seres que marchavam para lugar nenhum. 


Ainda sobre os fundos da casa da minha infância, o galpão era a parte que mais reservava mistérios, curiosidades e artefatos prontos para serem descobertos e explorados.

Naquele galpão, meu pai guardava muitas coisas. Até onde posso lembrar, eram ferramentas, como um serrote enferrujado, além de uma mangueira azul-marinho carcomida, que canalizava e desperdiçava água ao mesmo tempo.

Ou, também, longas e delgadas tábuas de madeira, pintadas com tinta óleo azul, desgastadas pelos cupins. E vidros vazios de pepinos, ou azeitonas, já sem os rótulos, nos quais a água da conserva fora substituída por formol, onde escorpiões estavam mergulhados num perpétuo naufrágio da morte.

Ou seja, aqui falo sobre objetos e seres que, talvez um dia, tiveram a sua estória em algum lugar. Entretanto, eu não poderia esquecer da maior atração do galpão da minha infância!

Lá, também estavam armazenados jornais antigos, úmidos, esfarelados, ao lado de agendas de anos anteriores. Agendas de capa preta, de couro, bonitas, porém com páginas em branco.

Certa feita, estava com um pequeno grupo de crianças da mesma faixa etária que a minha e abri uma daquelas agendas. Era a minha favorita, com um mapa do Brasil ao final. Na mesma época, a irmã gêmea da minha mãe, a Tia Tânia, morava no Rio de Janeiro. E eu já entendia algo de geografia.

Na minha imaginação, eu poderia abrir a agenda na parte do mapa, que estaria conectada à minha tia, diretamente do Rio Grande do Sul para o Rio de Janeiro. Eu acreditava, com fé, que bastaria gritar sobre o mapa para que as fronteiras fossem dissolvidas e eu fosse ouvida, do terraço da casa da Tia Tânia, que ficava no bairro de Guadalupe, no subúrbio da capital fluminense.

Trinta anos depois, parece que meu entendimento sobre as distâncias e as fronteiras não foi tão alterado assim, apesar da simplicidade e da praticidade de como eu entendia a vida outrora.

Quando tudo parece sem sentido, surreal e inútil, a arte está à espreita, com suas agendas e seus bolsos cheios de abacates imaturos, que não tardarão em restituir a utilidade daquilo que parece inútil, mas que faz parte da existência.

A arte é o meu mapa, sem limites e com pontos de conexão de memórias, de comunicação. Hoje, sou a mulher que carrega as agendas aparentemente vazias e inúteis, mas que anotam as memórias criadas e recriadas, que se perdem no tempo e no espaço, as quais estão nos diversos galpões mundo afora. Que falam com Guadalupe. Ou com qualquer outro lugar.


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