gastronomia

Um brinde às boas lembranças

Colunista aborda a relação entre a cerveja e as memórias afetivas


Foto: Marilice Daronco (Divulgação)

Quero começar a coluna de hoje com um desafio. Feche os olhos. Agora, respire fundo e tente lembrar-se de um aroma que traz uma lembrança boa para você. Pode ser aquele bolo recém-saído do forno que a sua mãe fazia, uma fruta no pé no pomar da sua casa de infância, ou quem sabe um perfume que lembra uma pessoa querida.

Quando eu tinha uns 10 anos, viajei de navio com a família. Mas, bem mais do que a lembrança da nossa aventura a bordo do navio e na terra do fogo, guardei nas minhas memórias afetivas as noites em que eu e meu irmão comíamos pizza e sorvete, que eram servidos bem tarde, em determinado deck. Aquele momento tem para mim um aroma especial. Tanto, que muitos anos depois, ao entrar em uma pizzaria na Argentina, senti exatamente aquele mesmo aroma, que pra mim é único, e isso mexeu com as minhas emoções.

Quando falamos sobre cerveja, em especial a cerveja artesanal, emoção e memórias afetivas são questões muito presentes. Bem mais do que o paladar, o olfato é uma fonte riquíssima de informações para o cérebro. Na ponta do lápis, mais de 80% daquilo que interpretamos como sabor, na verdade, é aroma.

A língua inglesa tem uma palavra que descreve a combinação de gosto e aroma: flavor e esta não tem tradução para o português, e é a que melhor descreve estas experiências sensoriais.

No mundo da cerveja artesanal, quando você começa a desbravar os diferentes tipos, descobre 'flavors' incríveis e totalmente novos, como o amargor do lúpulo, o aveludado da lactose, o caramelo do malte e o azedume produzido pelas bactérias, isso sem contar as infinitas combinações de lúpulos. E o mais interessante é que o resultado de toda essa alquimia vai variar muito de pessoa para pessoa. É que além dos sentidos, a degustação de cerveja envolve outros detalhes como preferência pessoal, memória e repertório tanto olfativo quanto gustativo.

É isso mesmo que você entendeu, duas pessoas podem perceber sabores completamente diferentes em uma mesma cerveja. Aliás, falando em

sabor de cerveja, sou capaz de apostar que a primeira vez que você experimentou essa bebida na vida fez cara feia e achou muito amarga. Comigo também foi assim.

Mas para exemplificar como as nossas percepções mudam, e como isso está relacionado ao nosso repertório, em 2010, em um evento cervejeiro em São Paulo, conheci a cerveja que considero até hoje o divisor de águas na minha vida. Era uma Stone IPA, oferecida em um stand que divulgava os lúpulos norte-americanos, que só se pensar, já começo a salivar. Aquela explosão de aromas e sabores me conquistou e me levou de vez ao universo cervejeiro.

Quando bebo uma Grimbergen Blonde, que apesar de Belga, nas minhas memórias, tem o gosto de Paris, pois me remete de volta a um lugar no qual estive poucas vezes na vida. Champagne? Para mim é sabor de primeiro do ano, hehehe.

Eu sempre digo que a cerveja, quando levada a sério, é algo que envolve muita ciência. A sua relação com a memória é prova disso. O exemplo clássico de memória olfativa é o que se conhece como memória proustiana (ou memória involuntária). Mediante esse fenômeno, a mera exposição a um estímulo desencadeia automaticamente uma lembrança intensa do passado. Para o escritor francês Marcel Proust, era uma madeleine (biscoito francês) molhada no chá que evocava uma lembrança detalhada da casa de sua tia. Está aí a explicação para aquele aroma que você sentiu no exercício que provoquei no início desta coluna.

Não quero terminar esse texto sem propor outro desafio. Quando for beber uma cerveja, não apenas encha o copo, aprecie! Quanto mais você preencher a biblioteca de aromas em seu cérebro, mais vai conseguir e identificar o que você está provando. Lembre-se que a cerveja tem um papel importante em reunir pessoas e construir boas lembranças, aproveite!


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