viagem

Jamais se curve para quem rasteja

'Sei que para cruzar a estrada é necessário coragem, persistência e força', escreve o colunista José Renato da Silveira

 


O sonho é uma porta estreita, dissimulada no que tem a alma de mais obscuro e íntimo
"Conhecer a sua própria escuridão é o melhor método para lidar com a escuridão dos outros".
Carl Jung (1875-1961)

Olhos sedutores
Tenho experimentado a vida com sobriedade. O equilíbrio, a temperança e o bem-estar comigo mesmo chegaram com a maturidade. Esta administra em pequenas doses os sonhos, projetos, conquistas, vitórias, erros, derrotas e frustrações como se fossem passos ao longo de uma estrada finita e imprevisível. Tudo de bom ou ruim serviu a um inescrutável propósito maior. Tentativas e erros fazem parte do ciclo da existência humana. De qualquer modo, ao refletir sobre a "estrada" que o Destino forjou para os meus pés, digo que, na maior parte da caminhada, fiz debaixo dos raios solares. Fui abençoado. Em minha jornada rumo ao conhecimento, o horizonte iluminado pelo espectro solar foi uma experiência motivadora para as passadas mais firmes e decididas. Também encontrei e, ainda encontro, em meio a estrada um sem número de pessoas generosas, virtuosas e altruístas que me apoiaram, encorajaram e auxiliaram nos momentos de fraqueza. De algum modo, busco retribuir o Universo com as mesmas ações bondosas. Sei que para cruzar a estrada é necessário coragem, persistência e força.

Os ventos favoráveis sopram e os ventos contrários rugem para desestabilizar. Costumo dizer que tenho uma alma solar e uma natureza otimista. Acredito que sou, aqui no planeta, um mero viajante. Antes que a

viagem seja interrompida, a qualquer momento, saboreio as cores do nascer de um novo dia como se fosse o primeiro e o último da minha vida. Apreciar a vida e viver em harmonia é um dom. Cultivo os dois. Sempre penso nas cores de uma tarde de verão para alegrar a alma. Nelas me identifico: sou vibração e cor, luz e calor. Com a alma aquecida enfrento sem dissabor os dias cinzentos e frios. Mas, nem sempre foi assim. Conectar com a energia do sol imaginei fosse o remédio para curar a agonia mental a que fui submetido tempos passados. Reminiscências amargas vinham à mente, sempre e sempre, para esfriar a temperatura ardente de meu corpo. Elas provocavam dor, revolta e fúria. Eu sentia as trevas crescerem em meu coração até mesmo com o crepúsculo púrpuro de verão. Dentro de mim, crescia um paladino clamando por vingança. Sussurrava: "Odeie quem comete injustiças e se compraz com elas! Odeie!".

Certo dia, em meio a essa confusão a atordoar meus pensamentos aconteceu algo. Chovia muito. Estava preso em casa numa tristeza sem fim. Sentia-me intimidado e ameaçado. As insinuações maldosas dos inimigos subjugavam amargamente minha mente. Por isso, sentia a presunção egoísta de ser não apenas mais uma, mas a única criatura insultada, humilhada e maltratada. Então ouvi um som estrondoso explodir ao meu lado. Não eram raios, nem trovões. Foram segundos de terror. Paralisei de medo. E contra minha própria vontade, reconheci as insanas e dolorosas batidas estrondeando no peito; reconheci na arritmia o intempestivo pedido de socorro de meu castigado coração. Soou como se fosse o último eco de uma funesta sinfonia. Senti que ia morrer ali. Sozinho. Abandonado. Injustiçado. Difamado. Arrasado, dobrei os joelhos no chão e pedi perdão aos meus pais e a Deus. Permaneci ali. Inerte. Prostrado. Destruído. Tempos depois, o furor passou. Com a mente desanuviada, pensei: "Nunca tive medo de enfrentar as adversidades. Como estou me entregando a elas?" Ergui a cabeça. Não iria me subjugar aos detratores e nem às ideias distorcidas e falsas. Levantei-me. No instante seguinte, vislumbrei pela janela o espetáculo maravilhoso dos arcos-celestes no firmamento. Sorri e chorei ao mesmo tempo. Era um sinal da providência divina. Eles abrandaram meus sentimentos negativos e confortaram minha alma. Agradeci a Deus. Estava de volta à estrada...

Durante um longo período, lembranças cruéis destilaram veneno em conta-gotas, em meu espírito. Sofri. Adoeci. Curei-me. A maledicência age como uma serpente lúbrica e envolvente a aprisionar a sua presa. "Víboras tem olhos doces e cândidos", penso, ao refletir sobre a lenda popular que diz que os olhos astutos e insinuantes das cobras seduzem suas presas; olhos mentirosos, olhos amaldiçoados - desde o Paraíso de Adão e Eva - evocam uma feitiçaria poderosa. Relato um sonho ou pesadelo impressionante. Por causa dele prometi que, não importa o que aconteça comigo, jamais perderei a fé, a confiança e a crença em Deus.

O Poder de um sonho
Estou caminhando em um bosque denso. Os raios dourados de sol penetram através das copas das grandes árvores e iluminam com suavidade o caminho. Por um tempo passeei a esmo pelos corredores de terra cobertos pelas folhas, cascas, galhos e gravetos caídos das grandes árvores, até perceber algo esquisito: o silêncio. Ergo a cabeça e olho para o teto verdejante. Os pássaros estavam mudos. A floresta estava numa quietude antinatural. Senti calafrios na espinha. Decidi sair dali o mais rápido possível. Mas não consegui achar o caminho que me levara até lá. Depois de voltas e voltas, vi-me perdido num labirinto de troncos retorcidos e espinhentos que não levavam a lugar algum. Escutei uns sons estranhos de sibilos e chocalhos soprando pelos troncos caídos e me afastei dali, nervoso.

Fui cada vez mais enveredando por túneis verdes, úmidos e sombrios e sendo cercado por cipoais sinistros e pelo mato alto que vicejava a cada passo que eu dava, em qualquer direção. Compreendi que chegara o meu fim com a noite prestes a descer. Assombrado e aterrorizado pelo medo, entreguei-me ao infortúnio; ele me conduzira até aquele lugar maldito. Não havia como sair dali sem ajuda. E não havia ninguém para me socorrer, meditei.

Desalentado e inconformado, simplesmente sentei-me numa enorme pedra escura recoberta por minúsculos parasitas e lamentei a minha falta de sorte. Então, de repente, escutei um som eufórico de triunfo seguido por risadinhas zombeteiras, debochadas, escarnecedoras. "Quem está aí?", perguntei e não ouvi resposta. Levantei-me apressado e olhei ao redor. Não vi ninguém. Mas, apesar do silêncio, notei o movimento das hastes do mato se curvarem e liberarem um odor fétido. Tive consciência imediata do que se tratava por conta do rastejar incessante. "São cobras, serpentes, víboras!" Por um segundo, fiquei congelado de pavor e pensei em fugir através do mato. Mas, talvez fosse exatamente isto que as víboras desejassem que eu fizesse.

Desde o início daquela jornada elas se arrastavam através das moitas. De tocaia. Olhos impuros carregados de mal observavam-me. Estavam à espreita, na esperança de um deslize de minha parte. Agora que descobrira a existência delas, seria sacrificado. Não gosto de criaturas ardilosas, dissimuladas e venenosas, por isso tratei de mostrar que pertencia a uma espécie diferente. Emiti um pio triste e longo de alerta para acordar a floresta emudecida. Os raios de sol atravessaram fantasticamente a cobertura verde e iluminaram o meu corpo emplumado. Um coro de sons altos e agudos, trinados, pios, chilreais irromperam numa sinfonia divinal. "Eu não estava, nunca estive só", refleti e alcei o mais ligeiro dos voos. Quando pousei na

copa de uma paineira centenária, fui cercado por dezenas de pássaros. Descobri que nunca deixei de ter amigos, amigos verdadeiros, sinceros, generosos. Soube, então, que a radiação que vinha do firmamento não era do Sol como eu presumia. Era de Deus! Acordei. E chorei enquanto rezava. Nunca mais esqueci desse sonho.

Jung e o mundo dos sonhos
"Na psicologia Junguiana, o sonho é considerado um processo psíquico natural, regulador, equivalente aos mecanismos compensatórios do funcionamento corporal. A nossa percepção consciente é apenas uma parte do que captamos, outra parte, ainda maior está no inconsciente (...). Basicamente, os sonhos servem para compensar e complementar a visão que o ego tem da realidade. A interpretação de um sonho permite que se preste atenção na direção que o processo de individuação está se desenrolando e o que se passa no inconsciente".

A simbologia dos sonhos
Os símbolos são, para a psicologia junguiana, a linguagem na qual nos expressamos nos sonhos. Não é uma linguagem simples de interpretar. Por essa razão, a psicanálise junguiana dá ênfase ao fato de que, apesar dos significados dos sonhos terem características universais, não se deve interpretar um símbolo sem ter uma compreensão profunda da situação pessoal de quem sonha.

Jung e o fantástico mundo simbólico dos sonhos
De acordo com Jung, os arquétipos mais importantes são o animus, a anima ou sombra. Jung não atribuía um significado fixo a um sonho. Tudo dependia do significado pessoal para o indivíduo que sonha, indo além da interpretação óbvia. Jung e a sua escola analítica considera que sonhar com animais é terreno arquetípico.

Conforme matéria do site A mente é maravilhosa, "se o animal causa medo ou confiança, se foi um sonho agradável ou produziu uma sensação de hostilidade. Os símbolos animais têm um vasto terreno de interpretação na mitologia".


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