viagem

Ausente

Colunista José Renato da Silveira escreve e reflete sobre a relação de ausência e presença durante a pandemia


Entre conselhos e advertências

Nesse momento dramático da pandemia do coronavírus, dizem que ando/estou/sou ausente. Quem me dera! Estou carente, isso sim.

Como diz Arnaldo Jabor: "existe gente que precisa da ausência para querer a presença". Martha Medeiros também escreve sobre a ausência: "Ausência física, ausência da voz e do cheiro, das risadas e do piscar de olhos, saudade da amizade que ficará na lembrança e em algumas fotos".

Ao falar de ausência, lembrei-me do belo poema de Carlos Drummond de Andrade:

"Por muito tempo achei que a ausência é falta. E lastimava, ignorante, a falta. Hoje não a lastimo. Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim. E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços, que rio e danço e invento exclamações alegres, porque a ausência, essa ausência assimilada, ninguém a rouba mais de mim".

Ultimamente, sinto a carência das frequentes viagens. Por conta do distanciamento social, opto pela viagem solitária, calma e segura: a literária. E redescobri na biblioteca de casa o clássico juvenil "Viagens de Gulliver" do escritor irlandês Jonathan Swift. E relembro as palavras irônicas desse genial escritor que sintetizam o comportamento/atitude de muitas pessoas no Brasil diante do Covid-19: "Como é possível esperar que a humanidade ouça conselhos, se nem sequer ouve as advertências".


VIAGENS DE GULLIVER
Publicado em 1726, "Viagens de Gulliver" é uma crítica contundente ao ser humano, suas instituições e seu amor exacerbado pelo poder e pelo dinheiro. Clássico da literatura de língua inglesa, o livro tem o título original de "As viagens através de várias e remotas nações do mundo, por Lemuel Gulliver, primeiramente cirurgião e depois capitão de vários navios".

São quatro viagens, e em cada uma delas há críticas à Inglaterra do século XVIII e à humanidade em geral. As duas viagens mais conhecidas são a Lilliput e a Brobdingnag.

Em Lilliput, Gulliver encontra homenzinhos minúsculos, diante dos quais ele é um verdadeiro gigante. Os liliputianos estavam em guerra constante com os também minúsculos habitantes de Blefuscu, a ilha vizinha. Brigavam para defender seu ponto de vista sobre o lado certo de quebrar o ovo, o mais fino ou o mais largo - e Gulliver, naturalmente, acaba se envolvendo na guerra, pelo lado de Lilliput.

Em Brobdingnag, inverte-se a situação: os habitantes do reino são gigantes, e Gulliver, agora muito menor que um anão, torna-se um brinquedo e uma atração para o povo, embora fosse bem tratado e bem cuidado por todos. Além disso, Gulliver tinha longas e produtivas conversas com o rei.

Num texto cheio de ironia, de sátiras à sociedade da época e à própria vida do autor, o livro questiona e critica os motivos fúteis pelos quais a Inglaterra e a Europa entravam em guerras, a facilidade em dominar os outros quando se é "superior", física ou economicamente, a utilidade dos exércitos, as guerras, as traições e intrigas palacianas, o governo inglês e seus governantes. Swift dizia sobre a sátira: "A sátira é uma espécie de espelho, onde aqueles que o fitam descobrem a cara de toda a gente menos a sua".

A sátira, o riso e o aprendizado que o meu silêncio vale mais
Após uma gostosa viagem literária, fiquei pensando sobre a sátira. A sátira é uma construção poética, livre e repleta de ironia que se opõe aos costumes, ideias ou instituições da época (em questão). Na literatura portuguesa, tivemos Gil Vicente que ridicularizava a sociedade portuguesa medieval.

Na literatura brasileira, o maior expoente da sátira foi Gregório de Matos. Alcunhado de Boca do Inferno ou Boca de Brasa, foi um advogado e poeta do Brasil Colônia. É considerado um dos maiores poetas do barroco em Portugal e no Brasil e o mais importante poeta satírico da literatura em língua portuguesa no período colonial.

"Hoje, a sátira pode ser expressa sob a forma de música, tira de jornal, desenho, filme, texto escrito, memes e etc. Os temas explorados também variam muito, mas focalizam sempre indivíduos que tenham algum tipo de destaque na sociedade. Por isso, os alvos preferidos dos que fazem sátiras são os políticos, os artistas e os esportistas".

Nesse momento de pandemia e isolamento, onde os estudos apontam níveis altíssimos de ansiedade, irritação e sentimento de impotência; as viagens literárias, os risos, as "ausências" e o silêncio são atitudes que nos permite alcançar a tranquilidade, estabilidade emocional e mental. Precisamos sair dessa crise pandêmica melhor do que entramos. Sejamos pacientes e conscientes.

Fonte: Aventuras na História


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