José Renato Ferraz da Silveira

A revolta da vacina

Colunista José Renato da Silveira escreve sobre 'ironias da história política brasileira'


Os ideais dogmáticos do positivismo serviram de base para a recém-proclamada República brasileira, sendo que grande parte dos intelectuais desse período eram adeptos ou simpatizantes da causa positivista.

Na realidade, o positivismo - desde 1850 - já tinha se infiltrado em importantes instituições brasileiras: a Escola Militar do Rio de Janeiro, a Escola da Marinha, o Colégio Pedro II, a Escola de Medicina e a Escola Politécnica.

Em especial, na área médica, Luis Pereira Barreto (1840-1923) contribuiu para a difusão do positivismo como higienista, defensor da saúde pública. Aliado à campanha da vacinação contra a varíola, "argumentou que o cidadão comum, não tendo luzes para discernir corretamente sobre tão complexo assunto, deveria aceitar por fé científica os que entendessem realmente da questão" (ROCHA, 2010, p. 30).

A relação entre o positivismo e a saúde pública evoluiu em duas correntes principais dentro do movimento higienista. Uma de perfil técnico, que não se envolvia em discussões sobre a filosofia positivista. Dela faziam parte Oswaldo Cruz e Carlos Chagas. E o outro grupo constituído por profissionais da saúde - bem ativos nas discussões filosóficas positivistas - como Luis Pereira Barreto, Afrânio Peixoto e Belisário Pena.

Um exemplo histórico da divergência entre os grupos rivais foi em relação à obrigatoriedade da vacina. Os positivistas ortodoxos do Rio de Janeiro eram contra a obrigatoriedade da vacina, argumentando que essa atitude invadia as liberdades individuais. Desta forma, os monarquistas, positivistas, operários, militares e outros formaram a "liga contra a vacina obrigatória".

No dia 9 de novembro de 1904, o projeto de lei foi aprovado e tornou a vacina obrigatória. Seguiu-se um motim que paralisou a cidade do Rio de Janeiro durante uma semana. E uma insurreição militar tentou - sem sucesso - depor Rodrigues Alves (presidente da República).

No final das contas, havia outras razões para o ataque e críticas à obrigatoriedade da vacinação. Uma delas foi a falta de compreensão do processo de imunização. Havia dúvidas sobre a eficácia.

E é claro, a "liga contra a vacina obrigatória" usava a revolta popular como estratégia política para derrubar Rodrigues Alves e Pereira Passos (prefeito do Rio de Janeiro). Ironias da história política brasileira.


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