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Notas sobre uma viagem de estudos...

Colunista Flávia Nascimento estreia coluna sobre moda relatando viagem à França e comentando assuntos como miscigenação



Eu já havia andado de avião anteriormente, então, não estava tão nervosa, porém algum sentimento novo me deixava inquieta, não sabia distinguir o que as frequências rápidas em meu peito gostariam de me dizer. Eu estava indo para Paris e, até a chegada ao destino final, seriam pelo menos 17h dentro de uma imensa lata com asas. Confesso que antes de chegar à França minha maior ansiedade era passar por cima do continente Africano. Ficava imaginando o deserto do Saara e as ilhas de Cabo Verde vistas de cima, mas por fim, meu assento não era nem próximo da janela, então logo me conformei?'fica para a próxima'. Ganhei essa viagem dos meus pais! Tenho pra mim que foi um presente de formatura, pois nunca imaginei que iria viajar pra um país da Europa antes de alcançar minha estabilidade financeira. Afinal, não é como ir a Tramandaí curtir as férias de verão, para mim viajar para outro país sempre foi algo a se planejar com muita antecedência, estudo, dinheiro, ou seja, artefatos que nunca participaram com facilidade da minha realidade familiar. Fotos: arquivo pessoal

Quando entrei para a faculdade de moda em 2015, já sabia que era exatamente aquilo que eu queria fazer e ser, aliás, essa certeza eu carrego comigo desde os 9 anos de idade. Me record de responder orgulhosa, quando questionada sobre o que eu gostaria de fazer quando crescesse: "eu quero ser estilista e modelo". Nesta época eu fazia esboços e croquis que hoje minha mãe guarda em uma pasta no roupeiro. Fui me formando enquanto pessoa e me enxergando enquanto indivíduo.

Quando eu falo em "ser" entendo que a moda atua como ferramenta de comunicação na vida de cada indivíduo, fazendo parte da construção de valores de um modo muito pessoal. Ela se faz presente desde o primeiro segundo após o processo de passagem do útero de nossas mães para o universo externo. Para crianças negras estar em constante avanço é uma obrigação para que você seja considerado. Não existe possibilidade de ser ruim, nem desobediente, repassar esse avanço para os nossos é um dever capaz de gerar cuidado e autoconfiança. A faculdade me ensinou justamente a ter este cuidado! Durante toda a minha fase de academia a preocupação em introduzir minha cultura e minha identidade no processo de aprendizado foi constante, meus colegas, meus professores, meus companheiros diários que trabalham na instituição, meus amigos, minha família e pessoas que admiram meu trabalho esperavam isso de mim. Antes mesmo de iniciar a faculdade e aprendendo a fazer costura reta na máquina doméstica eu iniciei minha marca chamada Criolando, então, basicamente, a faculdade desencadeou meu processo criativo, me tornou responsável, além de me profissionalizar e legitimar o que hoje eu faço com mais propriedade e melhor.


A viagem de estudos para a França surgiu um ano antes, a euforia durou pouco, pois faltavam poucos meses para a formatura e ainda restava o TCC, o desfile final, as fotos de formatura e mais uma pilha de trabalhos para entregar. Meus pais sempre foram presentes e preocupados com a educação que estava recebendo, isso quer dizer que sempre fizeram sacrifícios para que eu tivesse o melhor acesso as coisas, então, ganhei a viagem. De início não acreditei, na verdade só fui acreditar quando estava no portão de embarque, foi ali que o 'plim' da ficha caindo soou. Durante o planejamento final da viagem a preocupação de fornecer algum tipo de retorno para quem sempre acompanhou a Criolando era ensurdecedor, eu queria fazer alguma coisa, queria conhecer os 40% da população Africana que vive na França, conhecer os bairros tradicionais negros de Paris, Château D'Eau, Château Rouge, ir no Flea Market em Saint Ouen. Nessa situação toda, em conversa com uma amiga que mora em Lisboa, fiquei sabendo de um grupo de mulheres no Facebook que viajam para vários lugares da Europa. O grupo é destinado a fazer amizades, conseguir alojamento e tirar algumas dúvidas. Foi então que surgiu a ideia de construir um editorial de moda em Paris. Eu tinha as peças prontas, faltava apenas as modelos e a fotógrafa, o que logo se resolveu! Convidei uma colega e uma professora que também estavam ansiosas com a viagem, a Elissandra?(sobrenome) e a professora Rubiana (sobrenome), as quais toparam de prontamente modelar para as fotos. Posteriormente entrei em contato com a Malu (sobrenome), que é uma colega que possui um olhar incrível para fotografia e que pretendia levar a câmera para fazer algumas fotos. Também fiz uma postagem no grupo do Facebook, pois queria um modelo que fosse francesa (a ou o?). Acabei encontrando uma moça linda, querida e carioca chamada Stephanie (sobrenome) que casou com um francês e está morando na França a pouco mais de 1 ano.


Aqui no Brasil temos o fator da miscigenação, não que não haja orgulho em ser negro, mas as pessoas negras de lá são diferentes. Passeando pelos bairros negros de Paris pude perceber que existe uma força que nutre a população. Aquele "quê a mais" que solidifica a cultura num grau tão alto que se torna comum viver como se estivéssemos todos num pedaço de África. A maneira como as pessoas se portam, se vestem, se mostram, a maneira como os sorrisos se abrem, faz você se sentir em evidência, se sentir parte. Sem falar da beleza que a negritude carrega, homens e mulheres parecem adentrar em tapete vermelho por onde passam; são cabelos, tranças, turbantes, mesclados com bolsas da Louis vuitton, fragrâncias da Channel, sacolas da Gucci, uma verdadeira propaganda de perfume francês. Fazer as fotos na França era o que eu precisava para consolidar essa viagem como uma grande experiência de estudo, o sentimento de gratidão vibra, agradeço a Paris por me mostrar que o glamour é subentendido, que há uma rotina, que as pessoas são reais, sentem, xingam, sorriem e se expressam de muitas formas. Ainda que deva ser CONSENSO (é isso?) respeitar TODAS as pessoas acho importante ressaltar que lá me senti muito bem recebida, muito bem orientada e muito respeitada por todos. Digo isso na condição de uma mulher negra que não fala inglês, não fala francês, nem se dá bem com mímicas, mas que nas ocasiões em que precisou de uma singela orientação, recebeu a maior atenção do mundo. Me senti inspirada ao frequentar os bairros negros onde o comércio de origem da população gira em torno do compromisso de fomentar cultura que automaticamente é cotidiana. E me senti igualmente representada na Galeria Lafayette, onde homens e mulheres de pele retinta adentravam lindamente as lojas de marca de moda mundiais a fim de adquirir uma peça de roupa sem serem julgadas por tal. Obviamente Paris não é apenas isso, mas a oportunidade de passar 7 dias por lá me deram a certeza de que é muito mais do que eu imaginava.


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