sociedade

A fábula da quarentena

Colunista Guilherme Howes fala sobre isolamento social, Sérgio Moro e fábulas


O tempo livre, decorrente da quarentena em isolamento social que muitos de nós estamos vivendo, têm permitido retomar leituras há muito tempo guardadas na memória da nossa infância. Reli as "Fábulas Completas" de Esopo, numa belíssima edição da Cosacnaify, com ilustrações de Eduardo Berliner. Foi revelador sobre o momento em que vivemos.

A fábula narra que houve uma séria disputa entre o cavalo e o javali; então, o cavalo foi a um caçador e pediu ajuda para se vingar. O caçador concordou mas disse: "Se deseja derrotar o javali, você deve permitir que eu ponha esta peça de ferro entre as suas mandíbulas, para que possa guiá-lo com estas rédeas, e coloque esta sela nas suas costas, para que possa me manter firme enquanto seguimos o inimigo." O cavalo aceitou as condições e o caçador logo o selou e bridou. Assim, com a ajuda do caçador, o cavalo logo venceu o javali, e então disse: "Agora, desça e retire essas coisas da minha boca e das minhas costas". "Não tão rápido, amigo", disse o caçador. "E o tenho sob minhas rédeas e esporas, e por enquanto prefiro mantê-lo assim".

Ela é o espelho da nossa realidade. Para retirar o Partido dos Trabalhadores do Poder (o Javali), a Lava Lato e a nova direita (o Cavalo) se uniram ao bolsonarismo (o Caçador). Para a nova direita vencer a eleição de 2018, foi preciso que Sérgio Moro prendesse Lula quando ele estava em primeiro lugar em todas as pesquisas e ganharia as eleições em primeiro turno. Era também necessário um candidato que, se vencesse, aceitasse trazer essa nova direita para dentro do poder. Foi o que aconteceu.

Depois de vencer o Pleito, Moro recebe como recompensa pela colaboração em vencer o Javali, o cargo de super Ministro da Justiça e da Segurança Pública. Em troca Moro se comprometia em blindar seu chefe, seu filhos e aliados, de investigações da Polícia Federal e do Ministério Público em todas as instâncias e de todas as acusações.

Sem a aliança entre Moro, a Lava Jato e a nova direita com Bolsonaro, jamais o Cavalo e o Caçador teriam vencido o Javali. E essa aliança, como na Fábula, durou por um certo tempo. Agora, chegou o momento em que o Cavalo, já satisfeito com a ajuda do Caçador, pediu para que ele parasse de tutelá-lo, de dominá-lo. Moro não mais aceitou sujeitar-se ao bolsonarismo, com seus ministros terraplanistas, seu séquito militar e suas suspeitas de envolvimento com grupos milicianos. Moro demitiu-se, o Cavalo retirou o bridão.

A quarentena, que permitiu o tempo livre para ler Esopo, não deteve o desenrolar da História. Há poucos dias o Cavalo retirou de suas costas o Caçador e livrou-se de suas rédeas e de sua sela. A nova direita não precisa mais de Bolsonaro. Acontece que no mundo real, ao contrário da fábula, o Javali não está morto; e ameaça como um fantasma o cérebro e o coração dos vivos. Aos que sobreviverem ao coronavírus será permitido assistir a realidade superar a ficção. Fique em casa, lave as mãos. Será fabuloso!


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