saúde

Que(m) é essa tal psicanálise?

Colunista Karine Velasco escreve sobre sobre o trabalho e o custo da psicanálise


Tempos atrás um sujeito entra em contato querendo informações sobre as sessões, bem como, dúvidas sobre o "funcionamento" e o preço que é cobrado. Saliento que ele me procura enquanto psicóloga, mas me vejo construindo outros lugares a partir da formação em psicanálise, e tendo em vista que interpreto o sujeito que encontra-se em análise, considero de bom tom deixá-lo ciente desse lugar. Eis que me surpreendo quando este sujeito refere que no momento não poderia investir mais que uma vez por semana. De início, não compreendo o motivo que o faz lançar tal enunciação, porém dou-me por conta que isso é proferido após referenciá-lo sobre qual era o meu lugar.

Esta cena faz refletir, a partir de um recorte, sobre a compreensão que se pode ter da psicanálise. E parece ser uma compreensão um tanto quanto antiga, pois na época de Freud era comum que seus analisandos frequentassem as sessões quase todos os dias, com exceção de domingos e feriados, se não me engano. Atente-se que isso era em meados de 1890, um pouco antes, um pouco depois, talvez. Era outro século, outra época, outra cultura. Mas se corre o risco de ser interpretado até hoje dessa forma ou algo semelhante, questiono sobre o que estamos transmitindo a partir da psicanálise. Considero importante escutar sobre a frequência que o sujeito pensa na hora de procurar um profissional, pois isso já fala da lógica do sintoma dele.

A psicanálise é atual e caminha frente a esse tempo que estamos. Ela encontra-se presente frente a essa lógica capitalista sócio-político-cultural. A diferença é que ela não fornece garantia, ou seja, há um furo nessa procura que o sujeito faz, caminhando junto a um modelo biomédico, de encontrar respostas a seus males. A psicanálise faz com que o sujeito se coloque em análise, que faça questões a si. O sujeito que procura um analista atrás de respostas quer que esse outro se responsabilize e diga o que fazer. Mas como esse outro falará algo se não se sabe desse sujeito. E não há como saber, pois em nossas formas de linguagem há uma lógica. Não falamos aquilo que está sendo dito, há toda uma lógica por trás. E se na cena analítica, o analista já apresenta uma bagagem, se desconsidera o saber que realmente está em questão, que é o saber que esse sujeito tem sobre si. Ainda que, é esse sujeito, e somente ele, que realiza e sofre a ação, que é ativo independente dos atravessamentos. E digo isso, reiterando a necessidade de olhar para esse sujeito não mais como paciente, e sim analisando ou analisante. É necessário que ele seja ativo em seu processo analítico, e que possa reconhecer este lugar para si.

O trabalho do analista percorre a partir da ética, que fala da sua relação transferencial com seu analisante, utilizando-se da escuta e a interpretação. Interpreta-se para que o sujeito se escute, e possa por si mesmo, ver o que irá fazer com isso. É por essas construções iniciais que percebo o quão importante é primeiro escutar para depois ser possível conversar sobre o valor da sessão. Não dá para estipular um valor sem escutar, pois nesse valor já existente e dito, também há um saber - que a escuta do sujeito vale "x", mas não há como saber.

Ouso falar que a análise acontece com esse sujeito que me procura, pois à medida que ele sabe sobre o meu lugar, pode escolher o que ele quer, se é psicoterapia, ou colocar-se em análise ou outras formas de terapia. E foi uma vivência importante que faz refletir sobre o que transmitimos com a psicanálise. O divã, o analista silencioso, ou o analista "caro", longos tempos de análise, fala de estigmas que foram se construindo em torno da psicanálise, e que por vezes, fala muito mais do perfil do analista do que da psicanálise em si. E ressalto que isso não perpassa pela via do certo ou errado. Penso a psicanálise em sua pluralidade, pois cada psicanalista tem uma referência, e irá transitar a partir desta.

Não sei dizer se iniciar uma análise é caro, pois depende do que se atribui a isso. O que é caro é o sujeito, juntamente com a figura do analista, realizar um furo em seu sintoma, sair desse lugar confortável, apesar de sofrido (para alguns). É poder construir uma outra lógica em seu discurso, e com isso, olhar para outras possibilidades de investimento.


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