saúde

Para viver outros invernos

Psicóloga comenta isolamento e faz apelo para que pessoas sigam em casa


À Giovana, Guilherme e Manoela, por encurtarem distâncias


Conversando no último domingo com uma amiga psicanalista sobre seu recente casamento (pouco antes da pandemia chegar ao Brasil), falamos uma vez mais sobre formigas. Vou contextualizar melhor. Ela me enviou uma foto da cerimônia em que percebeu que eu estava usando amarrado no pulso um dos presentes que ela e o marido me deram quando realizaram o convite para ser a celebrante de seu casamento: um coração apeluciado que tinha na estampa do tecido algumas formigas e escrito "Com amor". O que o amor teria a ver com as formigas? Talvez nada até então. Quando ganhei o presente, falei a ela sobre a crônica de Clarice Lispector, "Eu tomo conta do mundo", publicada no Jornal do Brasil, em 1970. Nela Clarice diz que toma conta desde criança de uma fileira de formigas. Se ocupa dos seres miúdos, das pessoas, observa detalhes, percebe cores, ritmos, intervalos, temporalidades. Fala também que cuidar deste mundo dá trabalho. Minha amiga então me lembra de uma escrita de Diana Lichtenstein Corso, em seu livro "Tomo conta do mundo: conficções de uma psicanalista". Diana retoma a crônica e fala que Lispector "foi embaixadora da vida mínima, na qual pulsam máximas emoções". Concordo com ela. Penso que ficamos como formigas caminhando nas incríveis e complexas fileiras de palavras clariceanas. Detalhe 1: este ano Clarice completa seu centenário e ainda está tomando conta do mundo de muitos leitores, como eu, minha amiga e Diana. Detalhe 2: o livro de Diana, para quem não o leu, trás em sua capa e algumas páginas pequenas formigas caminhando pelas folhas. As formigas percorrem com Diana as importantes miudezas vividas. Acompanhada destas três mulheres que me referi, vou me ocupar então de mais uma minúcia sobre as formigas. Vamos lá!

A imagem das formigas na cultura popular é de que são incansáveis trabalhadoras, capazes de sacrificar qualquer coisa pelo bem do formigueiro. Para perceber isto, basta lembrarmos a fábula "A cigarra e a formiga", recontada por Jean De La Fontaine. Muitas vezes são associadas à disciplina, ao sucesso e aos altos índices de produtividade. Verdadeiros símbolos para dar boas doses de lições de moral a quem escapa aos nossos ideais sociais. Retomando a fábula: entendo que seja importante trabalhar nos verões para atravessar invernos. Sim, precisamos trabalhar para ter nosso sustento. Nossa juventude não é sem fim. É importante se preocupar com a velhice. Mas por que nos incomodamos tanto com a posição da cigarra que se permite descansar ou simplesmente fazer pausas? Por que colocamos o descanso ou a pausa na posição de desvalia? Pensando nisto vou fazer uma defesa ao descanso ou uma pausa para as formigas.

Descobri recentemente que grande parcela das formigas não trabalha no formigueiro através de um estudo feito por cientistas da Universidade do Arizona (EUA). Por duas semanas biólogos monitoraram a rotina delas através de câmeras instaladas no interior das colônias. Pasmem! Perceberam que apenas pouco mais de 2% da população de formigas da colônia trabalham full time, sendo que 25% ficam totalmente sem trabalhar. A grande parcela restante ora trabalhava, ora não fazia nada. Perceberam também que as formigas que estão dentro dos 25% passam a trabalhar quando aquelas que trabalham deixam de fazê-lo por algum motivo. Os pesquisadores relatam ainda que no tempo em que não trabalham, cuidam da colônia e das pequenas formigas da ninhada. De certa forma, os estudos ainda são recentes e precisariam de mais detalhes. Contudo, os pesquisadores contam que possuem uma hipótese que me pareceu muito interessante: de que estas formigas poderiam estar sendo poupadas por serem as mais jovens e/ou as mais velhas da colônia.

Este estudo, no mínimo, questiona a imagem que construímos a respeito das formigas para sustentar nossas formas de fazer socialmente: a grande maioria das formigas não trabalha o tempo todo; e a estratificação social da colônia parece proteger e sustentar a população de forma bastante inteligente. Não é à toa que estes seres habitam o planeta há milhões de anos! Isto foi muito importante para mim, ainda mais diante do momento que vivemos esta pandemia que nos convoca a pensar as formas de cuidado e proteção social. Será que não teríamos muito mais a aprender com as formigas pela maneira que elas se organizam para proteger seus velhos e seus jovens? O trabalho "de formiguinha", que dizemos quando queremos nos referir a algo que cada um faz um pouco, ir de pouco em pouco, me parece muito mais urgente do que trabalhar "como formiga" pelo viés que porta a interpretação moralista da fábula. Os biólogos disseram que as estas formigas que não trabalham se ocupam do ninho, cuidam dele e dos seus membros. Ou seja, não trabalhar não é sinônimo de não estar fazendo nada. Podemos produzir de outras formas. Trabalhar é só uma delas e, tem sido inevitável para algumas ocupações. Mas como será lidar com esse saber-fazer dentro do ninho? Que interrogantes entram em marcha quando precisamos dar uma pausa no trabalho durante os verões para poder viver outros invernos? Encerro esta escrita acompanhada de minha amiga, Clarice, Diana e das formigas, estes seres que tem algo sim a transmitir sobre o amor. Por favor, fiquem em casa!


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