reportagem especial

Ciclistas sob ameaça: os perigos e a violência contra quem pedala na região

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Foto: Foto: Pedro Piegas (Diário)

Foto: Pedro Piegas (Diário)

O professor Ricardo Bergamo Schenato, 36 anos, não faz ideia quando vai voltar a pedalar, se é que vai. A atividade, que, para ele, há 15 anos se confunde em esporte, lazer e quase uma "filosofia de vida", teve de ser interrompida após uma agressão que resultou em escoriações pelo corpo e o rompimento dos seis ligamentos do ombro esquerdo, no dia 6 de abril. Ele pedalava em uma rodovia da região quando o motorista de um carro estacionou, desceu do veículo e passou a espancá-lo. A violência só foi contida após a chegada de outros ciclistas. O caso revoltou praticantes da atividade e sociedade em geral.

VEJA ENTREVISTA DO CICLISTA: "caí e ele e continuou a me bater, a dar mais chutes e socos

Embora a polícia alegue que o incidente com o professor tenha sido um fato isolado, quem pedala afirma que só não acontece com mais frequência, porque a maioria costuma andar em grupos. Os 15 dias do inquérito já transcorreram, mas a investigação ainda segue em curso, pois aguarda laudos do Instituto Geral de Perícias (IGP). Porém, segundo o delegado que conduz o caso, Antonio Firmino Neto, da 4ª Delegacia de Polícia (DP), após o conhecimento de alguns exames médicos e de ouvir o depoimento do suspeito, da vítima e de testemunhas, o autor da agressão deve responder criminalmente:

- É algo que não tem justificativa. Estamos aguardando o IGP, mas, até o momento, tudo indica que configura um crime de lesão corporal grave.

À risca da lei, o crime mencionado pelo delegado prevê de um a cinco anos de reclusão. Se configurar como lesão corporal gravíssima, a pena é aumentada e passa a ser de reclusão de dois a oito anos.

MAIS RIGOR

Desde 12 abril, a Lei 14.071/20, que modifica o Código de Trânsito Brasileiro (CTB), foi publicada com novas regras no país. Uma das mudanças é em relação à gravidade da infração de trânsito que diz respeito a ultrapassagem de ciclistas. Conforme alteração no artigo 220, deixar de reduzir a velocidade do veículo ao ultrapassar ciclistas passará a infração gravíssima, com multa de R$ 293,47.

Para além da imposição das leis, praticantes, amigos e familiares de ciclistas reivindicam por mais políticas de trânsito, sinalização e estrutura adequada, policiamento nas rodovias, e, sobretudo, respeito e bom senso para que situações pelas quais os professor passou não sejam banalizadas.

- Somos uma sociedade violenta. Isso é reflexo do quanto estão legitimadas atitudes como essa. Estamos psicologicamente afetados, com medo. Hoje foi meu marido, amanhã será quem?- apela a esposa do professor agredido, que não quis ter o nome divulgado.

 DESRESPEITO E ROTAS SEM ESTRUTURA

Foto: Pedro Piegas (Diário)

Alguns artigos do Código Brasileiro de Trânsito (CTB) estabelecem normas e esclarecem quais são os deveres de ciclistas, pedestres e condutores de demais veículos. Também traz informações acerca da estrutura viária e de medidas institucionais que incentivem a prática e assegurem a integridade física de quem pedala. No artigo 21, por exemplo, está descrito que "compete aos órgãos e entidades executivos rodoviários da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos municípios: "planejar, projetar, regulamentar e operar o trânsito de veículos, de pedestres e de animais, e promover o desenvolvimento da circulação e segurança de ciclistas." O artigo 68 também deixa claro que "o ciclista empurrando a bicicleta equipara-se ao pedestre em direitos e deveres".

Conforme o secretário municipal de Mobilidade Urbana, Orion Ponsi, em 2020, foram três mortes e 32 acidentes com lesões corporais envolvendo ciclistas na área urbana. No ano passado, a campanha Volte Para Casa, encampada pela prefeitura, visava respeito ao trânsito e, sobretudo, proteção ao ciclista. Neste ano, contemplam as ações do aniversário de Santa Maria, celebrado na próxima segunda-feira, distribuição de material informativo sobre educação no trânsito, bem como deveres e direitos de ciclistas:

- Temos que ter constantes campanhas e conscientização, porque quando somente as leis funcionam para reger relações humanas e sociais estamos à beira do abismo.

Nas rodovias estaduais RST-509, RST-511 e RST-287 foram cinco acidentes no ano passado e dois neste ano. Já nas federais, BR-158, BR-287 e BR-392 foram seis em 2020 e três neste ano.

Vinicios Mattner, 37 anos, e Temístocles Barros, 29, são professores de educação física e têm uma empresa de assessoria esportiva. Com aumento do número de praticantes da atividade - estima-se cerca de 5 mil em Santa Maria - além da prática, os professores têm investido em workshops para explicar as principais leis de trânsito a quem pedala.

- Pedalamos em Arroio Grande, Val de Serra, Itaara, Faixa de São Sepé, Faixa Velha, em todas o acostamento não é bom. Em Arroio Grande, tu acaba tendo que andar em cima da pista. Anos atrás, colocaram guard-rails e taxões o que diminuíram ainda mais o espaço ? salienta Mattner.

Há casos, porém, em que o estreitamento da rodovia impede que a distância prevista em lei entre carro e bicicleta seja obedecida. Em outros casos, a sinalização está prejudicada, segundo a Polícia Rodoviária Federal (PRF), por conta de obras nas vias.

- Com as obras na Travessia Urbana, a sinalização fica precária mesmo, mas já solicitamos melhorias. No caso de acidentes com bicicletas, eles se dão, na maioria das vezes, no momento em que o ciclista pretende atravessar a via. Neste caso, tem a ver com cuidado de ambos os envolvidos. Às vezes, é melhor parar a bicicleta em local seguro, descer e fazer a travessia empurrando - explica o chefe da delegacia da PRF em Santa Maria, Paulo Junior.

Mattner foi um dos ciclistas que ajudou o professor agredido em abril. É por isso, que, para além da preocupação estrutural, ele também reivindica educação no trânsito. Segundo ele, no mês passado, houve dois episódios na Faixa Nova de Camobi. Um ciclista atingido por galhos, em outro por uma garrafa. Sem falar da violência verbal, que, segundo ele, é muito frequente.

Para Barros, esses e outros casos não podem ser silenciados:

-Nosso medo é que quando episódios desses acontecem e há impunidade, parece que vai "encorajar" outros a fazerem o mesmo. A gente sabe que também há ciclistas que xingam motorista, mas precisamos ter reciprocidade. E, claro, ter políticas públicas que incentivem tanto à prática quanto segurança do cicilsimo, para que a gente pedale sem medo. Precisamos de campanhas do poder público, empresas e assessorias esportivas, todos em prol do esporte.


LAZER, ESPORTE E TRANSPORTE

Foto: Pedro Piegas (Diário)

Gustavo Porto Machado Padilha, 37 anos, é auxiliar de limpeza em uma empresa do Bairro Camobi. De segunda a sexta-feira, ele usa a bicicleta para se deslocar. Pai de quatro filhos e morador do Bairro Diácono João Luiz Pozzobon, leva 40 minutos para fazer o trajeto de casa ao serviço. Na "garupa" da bike, ele leva marmita e materiais de trabalho.

Nos fins de semana quando passeia, também costuma usar a magrela. Para ele, a bicicleta ocupa as função de lazer, atividade física e, sobretudo, meio de transporte.-

- Faz uns 15 anos que eu só uso a bicicleta para tudo. E não é uma opção, pois não posso ter carro, tenho de ir com ela para todos os lugares. O que me entristece são os motoristas de carros acharem que são donos de trânsito e que a gente também não tem hora e lugar para chegar. Eu nunca me acidentei, diferente de alguns colegas lá da firma, mas luz alta, buzinaço e xingamento levo quase todo dia nessa Faixa Nova ? desabafa Padilha.


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