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Artigo

OPINIÃO: Do desalento à desesperança

14 Novembro 2017 00:00:00

O que me leva à desesperança e ao desencanto são nossas elites políticas e econômicas

Antônio Cândido Ribeiro

Vou confessar-lhes, amigos, estou cansado! E não é, como poderão alguns pensar, apenas um cansaço decorrente da passagem do tempo, que, gostemos ou não, faz sim mossas em nossa estrutura orgânica e em nosso arcabouço espiritual. Não, definitivamente, não é esse o tipo de cansaço que sinto.

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Também não é uma sensação decorrente do fato de que as atividades profissionais e outras tantas com as quais nos envolvemos, depois de quase um ano de labor intenso, acabam nos cansando sim, física e espiritualmente, e reclamam nova parada para reabastecimento anímico e para recarregar as baterias que, do ponto de vista físico, nos mantêm laboriosos e produtivos. 

O cansaço que sinto – e que vai na contramão de tudo quanto sempre senti e preguei em relação ao nosso país – é o cansaço que se assemelha à desesperança, ao desencanto, ao desalento. Lembro-me de ter me sentido assim apenas uma vez, há muito tempo, quando da descoberta de uma maracutaia qualquer envolvendo autoridades públicas corruptas e empresários corruptores. Já nem lembro qual maracutaia, nem quem eram as personagens envolvidas. Mas, com certeza, nada que se possa comparar à situação vivida pelo Brasil nos últimos anos.

De qualquer maneira, é bom esclarecer, não se trata de um sentimento ligado apenas à questão da corrupção, que assumiu características de pandemia no país. Por que essa pandemia, bem ou mal, tem sido enfrentada com algum êxito e, mercê desse enfrentamento, nunca tantos poderosos se viram enrascados com a polícia, com o Ministério Público e com o Judiciário. Naturalmente, há boa dose de probabilidade de que isso, de alguma forma, colabore para meu estado anímico atual. Mas, repito, esse fato não é preponderante.

O que leva à desesperança e ao desencanto são nossas elites políticas e econômicas com sua insensibilidade e sua disposição de perpetuar privilégios corporativos e de não assumir qualquer responsabilidade pelos descaminhos do país. Ao contrário, buscam sempre mascar a verdade e vender a ideia de que os responsáveis por esse estado de coisas são aqueles que, na maior parte das vezes, fazem o estado funcionar e a “roda da economia” girar. Tal ideário e o discurso dele consequente, de tão reiterados, parecem amortecer qualquer possibilidade de reação popular.

E assim boa parte das lideranças políticas e governamentais, composta por vendilhões cuja desfaçatez não tem limites, se locupleta, utilizando o aparato estatal em benefício próprio e se consolidando no usufruto da riqueza que o país produz. 

Como nunca antes ocorreu em períodos de normalidade democrática, brasileiros de todos os segmentos sociais, levados pela indignação com o desrespeito a princípios éticos elementares e estruturadores de qualquer sociedade civilizada, se mostram dispostos a buscar alternativa de vida fora de nossas fronteiras e lançam seus olhares esperançosos para, por exemplo, a Península Ibérica, onde se encontram boa parte de nossas raízes. Talvez, daí nasçam meu cansaço, minha desesperança, meu desencanto.

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