contatos Assine
surto de toxoplasmose

Infectologistas dizem que é cedo para descartar a água como fonte do surto da toxo

14 Maio 2018 12:00:00

Resultados de análises de amostras coletadas em Santa Maria divulgados na sexta deram negativo para o protozoário da toxo

Foto: Gabriel Haesbaert / DiárioSM/

A polêmica sobre o surto de toxoplasmose só cresce, principalmente depois que a Companhia Riograndense de Saneamento (Corsan) divulgou, na sexta-feira, "exames comprovam ausência de toxoplasma nos resultados de amostras de água tratada de Santa Maria". Os resultados foram apresentados pela prefeitura de Santa Maria durante a divulgação do boletim de números confirmados de toxoplasmose.

O documento, assinado pelo Laboratório de Zoonoses, Saúde Pública e Protozoologia da Universidade Estadual de Londrina (UEL), apresenta os resultados para 32 amostras analisadas pelo órgão que foram coletadas no dia 26 de abril pela própria Corsan, em sete pontos diferentes na cidade (Estação de Tratamento da Água - ETA, redes de distribuição e tanque de armazenamento). Todas apontaram presença negativa do Toxoplasma gondii.

A divulgação dessa informação causou revolta em médicos infectologistas de Santa Maria, que estão muito preocupados com a grande quantidade de doentes e pelo fato de quatro grávidas já terem perdido os bebês (duas mortes de fetos e dois abortos), com forte suspeita de ser por toxoplasmose. Eles emitiram um alerta em forma de texto para a população (leia a íntegra nesta reportagem abaixo)

Os médicos estão indignados porque, ao afirmar isso, a Corsan induz erroneamente as pessoas de que podem beber a água sem problemas, o que pode aumentar o número de doentes numa eventual possibilidade de a água estar, sim, contaminada. Isso não quer dizer que os médicos culpem a água, mas é apenas uma medida de precaução fervê-la antes do consumo.

O médico Fábio Lopes Pedro, doutor em Epidemiologia (área que investiga as causas de surtos), considera que seria irresponsável divulgar esse tipo de informação, pois, tecnicamente, os exames feitos até agora não são suficientes para descartar qualquer hipótese para a contaminação, seja por alimentos ou pela água.

- Não há teste na água que seja capaz de excluir a própria água como fonte de infecção e ou contaminação. Chamamos isso de valor preditivo negativo, o qual deve ser próximo a 100%. Esse teste não existe, muito menos em metodologia utilizada não esclarecida ou validada. Por isso, no momento que tenhamos a fonte de contaminação definida, e sendo outra que não a água, poderemos talvez excluir a água como fonte de contaminação - alerta o profissional.

Lopes alega que a irresponsabilidade está no fato de a Corsan induzir a população a se descuidar e voltar a tomar água sem ferver por 10 minutos. Inclusive, a própria Vigilância Sanitária municipal reforça que os exames da água não bastam para descartar a hipótese de contaminação no líquido e, por esse motivo, reforça a importância de seguir fervendo a água antes de beber, por medida de precaução.

271 CASOS
Na última sexta-feira, o governo do Estado e a prefeitura divulgaram boletim atualizado do surto de toxoplasmose na cidade, indicando que há 271 casos confirmados da doença. Desse total, 24 são gestantes. Até agora, são 847 notificações já feitas. E a estatística pode aumentar, já que 230 casos permanecem em investigação. 

Created with Raphaël 2.2.0Casos confirmadoscasos19 de abril20 de abril24 de abril27 de abril04 de maio08 de maio11 de maio0100200300

A causa da morte de dois fetos (de 28 e 36 semanas) e dois abortos (de gestantes com 15 e 21 semanas) também estão em investigação pelo Laboratório Central do Estado do Rio Grande do Sul (Lacen-RS), já que as grávidas tiveram sorologia positiva para a doença.

O QUE DIZ A CORSAN
Em relação à manifestação dos médicos sobre a reportagem da Corsan e de que a divulgação feita na sexta-feira induziria as pessoas a não tomarem mais os cuidados devidos, o coordenador regional da Corsan, José Epstein, comenta que o posicionamento é "muito interpretativo". De acordo com ele, em nenhum momento a companhia se manifestou contrária às recomendações já feitas pelos próprios médicos e Vigilância em Saúde do Estado e municipal quanto às medidas de prevenção.

_ O que existe é um processo de investigação que não abrange só a água, abrange também a questão alimentar. Tudo o que foi solicitado à Corsan foi feito, e nada teve indicativo _ relata Epstein, que ainda reforça que a divulgação dos resultados das análises das amostras coletadas é uma prestação de contas da empresa à população, "que estava tendo a sensação de que a água de Santa Maria estava contaminada, o que não se evidenciou". 

MÉDICOS EMITEM ALERTA
Diante da polêmica criada após a divulgação de que a água que abastece Santa Maria não estaria contaminada (ao menos os primeiros exames não identificaram a existente de toxoplasmose), um grupo de 10 médicos infectologistas divulgou um alerta sobre os cuidados necessários em meio ao surto. Os profissionais lembram das lições que resultaram do surto de cólera ocorrido em 1991 no Peru.  

Na esperança de negar que o prato tradicional do país, o ceviche - pescado cru - não era o motivo da doença, o então presidente Alberto Fujimori e o ministro da Pesca, Felix Canal, degustaram, ao vivo, o alimento. Dias depois, o ministro acabou acometido de uma gripe "suspeitíssima". Diante do provável exemplo errado dado à população do Peru, a epidemia se alastrou e causou a morte de centenas de peruanos.

Confira, abaixo, o texto na íntegra

Os cuidados necessários em meio ao surto de toxoplasmose
Era o ano de 1991, no Peru. Em meio a uma grave epidemia de cólera que surgiu inesperadamente no Porto de Callao e rapidamente se alastrou por todo o país, o então presidente peruano, Alberto Fujimori, e seu ministro da Pesca, Felix Canal, degustaram, ao vivo, um saboroso "ceviche" em rede nacional de televisão, frente a centenas de milhares de telespectadores que, preocupados, buscavam mais informações sobre a doença. Prato típico do país e o preferido de nove entre 10 peruanos, o "ceviche" nada mais é que pescado cru, temperado com limão, sal e pimenta, acompanhado de milho e batata doce.

Acontece que esta tradicional iguaria oriunda da forte e internacionalmente conhecida indústria da pesca peruana estava sendo considerada pelo então ministro da Saúde da própria equipe de Fujimori, o médico Vidal Layseca, como uma das potenciais fontes de transmissão do cólera, tanto que recomendava energicamente que todo e qualquer fruto do mar fosse consumido pela população somente depois de muito bem cosido, fritado ou assado. A história nos conta que o ministro da Pesca acabou enfermo e internado com uma gripe "suspeitíssima", seu colega da Saúde pediu demissão, a epidemia se alastrou ainda mais pelo país, contagiou milhares de pessoas, matou centenas de peruanos, além de atingir a população de outros países sul-americanos, inclusive o Brasil.

O surto de toxoplasmose de Santa Maria já pode ser considerado o maior desta doença no mundo. Já se vão cerca de três meses que os casos começaram a "pipocar" nos ambulatórios e consultórios médicos na cidade. Mesmo assim, ainda não sabemos qual sua fonte.

O fato de não conhecermos a origem do surto não surpreende. No caso semelhante e recente de São Marcos, também não se identificou a fonte de propagação. As técnicas e metodologias para identificação do Toxoplasma gondii no meio ambiente são pouco eficazes e resultados negativos não necessariamente significam ausência do protozoário. O certo é que, se tratando de toxoplasmose, sempre se considera como possíveis fontes os vegetais contaminados e mal lavados, as carnes malcozidas e a água contaminada. Há de se investigar todas elas, mas até termos certeza absoluta do que está acontecendo, devemos ter todo o cuidado. Um descuido agora pode cobrar um preço muito alto em gestantes, imunossuprimidos e pessoas com problemas oculares.

Surpreendentemente, dia 11 de maio, recebemos a notícia de que a água da Corsan fora analisada pelo laboratório referência no Brasil. É importante ressaltar que se trata do único capacitado para este tipo de investigação no país e também o único autorizado pelo Ministério da Saúde para realizar especificamente este exame. As amostras colhidas aqui e enviadas para lá resultaram todas negativas para toxoplasmose. O laboratório com certeza é ótimo. Mas, e as amostras são boas também?

Se ainda não temos as características epidemiológicas bem delineadas pelo poder público; se ainda não sabemos quem são e onde moram nossos doentes; se ainda não houve uma correlação entre o endereço de nossos doentes e o local das obras feitas em tubulações da Corsan no início deste ano, como vamos colher amostras de água adequadas? Como vamos investigar e colher alimentos que potencialmente estariam contaminados?

Infelizmente, nos últimos dias não vimos diminuir o números de novos casos, portanto, os médicos infectologistas de Santa Maria reforçam a necessidade de continuarmos com todos os cuidados já expostos, principalmente, e em especial, com vegetais mal lavados, carnes malcozidas e água da torneira que não deve ser ingerida antes de fervida ou adequadamente filtrada.

Assinam: Jane Costa, Alexandre Vargas, Thiego Cavalheiro, Fábio Lopes Pedro, Helen Oliveira, Liliane Pacheco, Reinaldo Ritzel, Vanessa Oliveira, Leonardo Franco e Felipe Ferigolo, médicos infectologistas de Santa Maria

fale com a redação

quem somos
leitor@diariosm.com.br
(55) 3213-7110
(55) 99136-2472
(WhatsApp)

redes sociais
facebook
instagram
twitter
youtube

 


para assinar
(55) 3220-1717
diariosm.com.br/assinaturas

central do assinante
(55) 3220-1818
(55) 99139-5223
(WhatsApp, apenas falhas de entrega)

para anunciar
(55) 3219-4243
(55) 3219-4249