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Reportagem

Enquanto trabalhadores tapam buracos, desviam de ofensas e de atropelamentos

01 Julho 2017 00:00:00

Diário acompanhou trabalho dos funcionários da prefeitura, testemunhou xingamentos, críticas e motoristas que não reduziram a velocidade e quase provocaram acidentes

Todos os dias, às 5h30min, o despertador de João Batista Lima, 50 anos, o ajuda a sair da cama a tempo de tomar um chimarrão antes da labuta. Ele sai de casa, no Bairro Chácara das Flores, sempre às 6h45min, em direção à prefeitura, onde um veículo do Executivo o espera para levá-lo, junto com os colegas, para a Usina de Asfalto, no Distrito Industrial. 

De lá, ele sai por volta das 8h para enfrentar uma rotina que não é nada fácil. Funcionário da prefeitura há 17 anos, ele trabalha há quatro com a recuperação do asfalto das ruas de Santa Maria. O ofício o ajudou a desenvolver as habilidades de corredor de rua, atividade à qual ele já dedicou metade da vida. Durante o trabalho na operação tapa-buracos, ele testa a agilidade para correr mais e melhor – e fugir dos atropelamentos –, e aprende a encarar a vida com mais alegria – para não se chatear com os insultos:

– Nem sei quantas vezes quase fui atropelado pelos motoristas que andam ligeiro e que não respeitam o nosso trabalho. A gente sabe que atrapalha o trânsito, e a gente tenta fazer tudo da forma mais rápida possível para não criar transtorno. Mas, para arrumar os buracos, a gente precisa estar na rua, não é? 

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A cada buzinada dos impacientes por trás dos volantes, João ergue os braços e comemora com os companheiros: "É o timão, mais um gol do timão!", diverte-se. A brincadeira ajuda a amenizar o clima de tensão enfrentado pelos profissionais que são alvos de incontáveis ofensas sobre o bloqueio nas ruas e sobre a qualidade do trabalho desempenhado por eles. 

– Nossos funcionários precisam lidar com uma série de sarcasmos, ironias e ofensas todos os dias. Mas eles estão só trabalhando, fazendo o melhor que podem, da maneira mais ágil que conseguem. Não tivemos nenhum caso de agressão, mas há pessoas impacientes que aceleram e passam por cima do trabalho que recém foi realizado. Precisamos da compreensão das pessoas, e que tenham paciência e respeito com o nosso servidor – diz o secretário municipal de Infraestrutura e Serviços, Paulo Roberto Almeida Rosa.

Serviço de recuperação das vias urbanas é emergencial

A operação tapa-buracos teve início no mês de junho, após liberação de recursos pela prefeitura. No dia 29 de maio, o Executivo anunciou o  plano de recuperação emergencial das principais ruas e avenidas, que tiveram desgaste acentuado após um longo período de chuvas na cidade. Para garantir os valores necessários para a realização dos trabalhos, o prefeito Jorge Pozzobom alterou o texto do artigo 3º, do Decreto Executivo nº 2/2017, que previa o contingenciamento de recursos por parte das secretarias, órgãos e entidades do Poder Público. Ficou definida a liberação de um total de R$ 1 milhão para a execução dos serviços.

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Segundo o secretário de Infraestrutura e Serviços Públicos, Paulo Roberto de Almeida Rosa, o recurso disponibilizado está sendo aplicado exclusivamente na operação emergencial de restabelecimento da trafegabilidade de Santa Maria. O valor destina-se à compra dos materiais aplicados nas ruas, à manutenção das máquinas, à aquisição de pneus, à manutenção de caminhões e à contratação de serviços que reforcem o serviço de pavimentação asfáltica.
Hoje, cinco equipes da Secretaria atuam nas vias urbanas e também nas estradas do interior do município.

Flagrantes de impaciência e de incompreensão no trânsito

Alguns desses momentos de desrespeito e impaciência foram flagrados pelo Diário na manhã da última quarta-feira. A reportagem acompanhou a equipe de oito trabalhadores, das 10h às 11h10min, na Avenida Presidente Vargas, entre as ruas Visconde de Pelotas e Floriano Peixoto.

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João, o responsável pelo carrinho de mão que leva o asfalto do caminhão até os buracos, corre mesmo para lá e para cá, e os carros passam bem pertinho dele em vários momentos. Como o trabalho é muito dinâmico, e a equipe está em constante deslocamento, fica difícil fazer a sinalização com cones, e os próprios funcionários acabam alertando os motoristas da presença dos colegas na pista.

Muitos dos que estão no trânsito diminuem a velocidade, acionam o pisca-alerta para avisar os demais motoristas e dão a vez para quem tem de desviar do trabalho. Mas outros tantos aceleram, param em cima da equipe que está acomodando o asfalto ou passam por cima do conserto assim que os trabalhadores se afastam. 

Moradores se unem para tapar buraco em rua do Centro 

No tempo em que o Diário acompanhou a equipe, o trânsito foi totalmente bloqueado, nas duas pistas da Presidente, no sentido bairro-Centro, mas o bloqueio não durou mais do que um minuto a cada vez. Enquanto alguns motoristas reduziram para que os funcionários da prefeitura pudessem caminhar na pista, outros aceleraram para passar antes do bloqueio. Em um desses momentos, um motorista que parou no sinal chamou o fotógrafo do Diário e disse, na frente da equipe que estava trabalhando, que o jornal deveria fazer uma reportagem sobre "o serviço ruim e que não ia durar muito tempo" o que os operários estavam fazendo. 

Com as interrupções em sequência, chuva de buzinas se repetiu algumas vezes, e o João, correndo para um lado e outro, comemorou "mais um gol do timão". Durante a jornada, além de ouvir as reclamações de um ou outro motorista, o operário ainda foi interrompido por uma moradora de uma rua próxima da avenida. Ela queria que ele fosse até a frente da casa dela consertar um buraco que a atrapalha para entrar e sair. Ele ouviu tudo com tranquilidade e paciência. 
– Nossa orientação é que a equipe trate as pessoas com respeito e dê a resposta que a população merece – explica Almeida Rosa.

O desrespeito

Um dos momentos mais tensos enfrentados pela equipe da prefeitura, no tempo em que o Diário estava junto, foi quando um motorista de um carro vermelho avançou o carro sobre um dos funcionários que assentava o asfalto sobre um buraco com uma enxada. Era por volta das 10h55min, a equipe estava quase em frente ao Hospital de Caridade, e um dos operários teve de recuar para que o homem não passasse por cima do instrumento de trabalho. 

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Em seguida, o motorista passou por cima do asfalto úmido, buzinou para o caminhão da equipe, gesticulou para o funcionário que estava na caçamba e acelerou. Chateado, o funcionário comentou com o colega: "eles querem que melhore, mas, para melhorar, a gente precisa trabalhar".

A realização de um sonho

Foto: Gabriel Haesbaert / Tapa-buraco

Na sexta-feira de manhã, o Diário acompanhou, outra vez a equipe que, na ocasião, trabalhava na remoção de parte do asfalto da Rua Duque de Caxias. Mesmo com a garoa fina que caía, eles deram sequência ao trabalho que, dessa vez, foi sinalizado com cavaletes. Apesar do esforço, houve moradores de perto do local onde eles estavam que disseram que os operários só estavam trabalhando por causa da presença da imprensa, porque, se a reportagem não estivesse no local, "eles não iam fazer nada com essa chuva, iam passar o dia de braços cruzados".

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João, o corredor (na foto ao lado), depois de muito movimentar os braços e as pernas, esperava pelo final do expediente, às 17h, para continuar correndo. Solteiro e sem filhos, ele sai do serviço e vai para a casa onde mora com a mãe e os irmãos para se preparar para mais um treino. Integrante da União dos Corredores de Rua de Santa, João corre no Centro Desportivo Municipal ou na Praça do Mallet. Essa dedicação toda já rendeu a ele algumas medalhas e a realização de um sonho.

– Já corri na São Silvestre, em São Paulo, em 2005. Sou corredor de rústica e consegui percorrer 15 quilômetros e 142 metros em uma hora. Fui no pelotão do povão, mas foi muito legal. Também já corri em Porto Alegre várias vezes, e já ganhei medalhas na minha categoria – contou ele, animado, antes de começar mais uma jornada de corridas com o carrinho em mãos.

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