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o amor é colorido

VÍDEO: documentário de alunos da UFN valoriza relações entre mães e filhos de todas orientações sexuais

12 Maio 2018 11:00:00

Estudantes de Publicidade e Propaganda participaram de projeto que resultou em 'O Amor é Colorido: uma Conversa de Mãe para Mãe'

Pâmela Rubin Matge

Fotos: Renan Mattos (Diário)
Lucia Fernandes e o filho Gerson. A história deles é uma das contadas em "O amor é colorido"

Neste Dia das Mães, vai ter almoço em família para quem ainda tem o privilégio de ter a figura materna presente. Pode ter churrasco, sobremesa ou mesmo aquela comida simples, de encher o coração. Pode ser um encontro em qualquer lugar. Em algumas casas, porém, estarão reunidos pais, tios, sobrinhos, avós e netos. Sentados à mesa, pode ter filho e nora ou filha e genro. Pode, também, ter filha com nora e filho com genro. Pode tudo. Só não pode faltar respeito. 

Sobre esse sentimento, quatro mães de Santa Maria e da região falaram por uma infinidade de outras mães. Às vésperas dos dia que as homenageia, Lucia, Enilza, Neuza e Andrea participaram de um projeto que culminou no documentário intitulado O Amor é Colorido: uma Conversa de Mãe para Mãe.

O trabalho foi desenvolvido por três alunos do 6º semestre de Publicidade e Propaganda da Universidade Franciscana (UFN). Yury Paim, 23 anos, e Matheus Silveira, 21, vislumbraram, na sua vivência enquanto filhos, a necessidade de amplo diálogo entre mães. Laura Piccin, 20 anos, outra integrante do grupo, abraçou a ideia junto dos colegas. A ação integra a disciplina de Projeto de Extensão Comunitária 2 e começou a ser desenvolvida no ano passado.

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Embora sobrem informações, já que a Anistia Internacional já considerou a homofobia uma violação aos Direitos Humanos, e, desde 1985, o Conselho Federal de Medicina retirou homossexualidade da lista de doenças, ainda assim, o Brasil é o país que mais mata gays, segundo a Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgêneros e Intersexuais (ILGA). Na contramão desse vexatório ranking, uma iniciativa dentro de uma instituição religiosa dá aula de como combater o preconceito.

- Eu sempre estive envolvido em causas sociais e queria fazer alguma coisa que eu acreditasse e que pudesse ajudar outras pessoas. A Laura e o Matheus Silveira compraram a ideia. Queremos dar continuidade e fazer outras edições com avós, pais, tios, irmãos - conta Yury.

Para Laura, o projeto extrapolou a sala de aula e foi transformador:

- Sou de cidade pequena, não tive muita oportunidade de conviver com diferentes tipos de orientações sexuais. Se vir a acontecer, eu vou ter muito amor para dar (aos filhos). Foi aprendizado para mim.

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Na abertura do pré-lançamento do documentário no último dia 7, no conjunto 3 da UFN, Matheus declarou:

- O projeto significou muito para a gente, para pensar que existe outro ângulo. Muito se fala sobre LGBTs, mas não se fala da família, do processo de desconstrução que elas passam. Por que as mães? Ora, é geralmente para onde o filho corre, é em quem costumam confiar.

POLÍTICAS PÚBLICAS 

Na próxima quinta-feira, será celebrado o Dia Internacional contra a Homofobia. O Brasil ainda não tem uma lei específica que criminaliza agressões ou mortes ocasionadas pela intolerância de homofóbicos. Para a advogada e ativista de questões de gênero, Gabriela Cezimbra, houve conquistas à população LGBT. Decisões do Supremo Tribunal Federal (STF), como reconhecimento do casamento LGBT, a mudança do prenome de travestis e transexuais em cartório, sem necessidade de processo judicial, é um exemplo. Contudo, a sociedade e a legislação não acompanham esses avanços.

- Acredito no exercício da empatia para quebrar o preconceito. Iniciativas como essas (projeto) prestam um serviço de acolhimento aos jovens que são tão rechaçados fora de casa e precisam de acolhimento dentro da própria família. Em relação à violência, estão estagnadas políticas públicas a LGBTs, ainda que a Corte Interamericana de Direitos Humanos venha apresentando dados contundentes da necessidade de um trabalho nesse sentido no Brasil. Neste novo governo, foram cortados os investimentos públicos nessa área, tornando difícil até mesmo a atuação de ONGs que precisam de editais para inscrever seus projetos, mantendo-se atuantes

"Quando o filho sai do armário, a mãe entra"

Especialista em Saúde Mental, Jordana Rodrigues da Silva foi uma das psicólogas que acompanhou o projeto O Amor é Colorido. Segundo a profissional, são poucas as discussões voltadas às famílias de LGBTs, sobretudo, às mães.  

Trocas e reflexões são importantes, pois o familiar geralmente passa pelos mesmos sentimentos que o filho vivenciou: medo do olhar do outro, angústias, receios. É necessário, pois, compreensão mútua, pois todas as partes estão imersas em uma cultura normativa, que supõe modos de viver, de sentir e de se relacionar.

O contexto e o suporte familiar são diferenciais na constituição subjetiva de qualquer indivíduo. Quando se trata de alguém que sofre alguma forma de estigmatização, a família é ainda mais essencial.

Em razão da construção social que rodeia o tema da homossexualidade, o "não dito" pode se tornar um obstáculo, por isso, conversar é necessário e fundamental. O silêncio pode se tornar um causador de sofrimento ainda maior, e procurar por um profissional de saúde é indicado, já que a quebra de estigmas e estereótipos pode ser algo lento e com inúmeros desdobramentos. Além disso, a desconstrução pode ser potencializadora para diferentes olhares, assim como uma abertura para uma nova relação mãe-filho.

Jordana também menciona que, muitas vezes, mães e filhos costumam buscar "exemplos" em outros casos, criando uma expectativa sobre como será esse processo, fantasiando possibilidades. Contudo, essa não é uma resposta pronta. A sexualidade e a identidade de gênero não são definidoras do sujeito. Fazem parte dele e de sua constituição, mas não são uma totalidade, não ditam regras e comportamentos.

- Esse processo de aceitação e reconhecimento é singular, tanto para o sujeito LGBT, o qual vivencia o processo de contar sobre sua sexualidade, quanto para quem recebe essa informação. Pode-se pensar que é uma saída dupla do armário, isto é, quando o filho sai do armário, a mãe entra - diz Jordana.

AS QUATRO MÃES DO PROJETO


 "Tenho quatro filhos, três gays. Os quatro normais"

A primeira mãe procurada pelos alunos do projeto foi a maquiadora Lucia Fernandes, 46 anos. Ela viajou de São Sepé para Santa Maria para compartilhar suas vivências. Também participou de entrevistas, programas de rádio, encampou o projeto junto dos alunos fazendo convite a outras mães. Falar sobre homossexualidade para Lucia é fácil. Hoje. Quando soube que um dos filho era gay, anos atrás, sofreu, deparou com uma situação desconhecida sem saber como agir. Tempos depois, soube que outros dois filhos, gêmeos, também eram homossexuais.

- Tenho quatro filhos, três gays. Os quatro normais. Atualmente, a situação é tranquila, mas, quando soube do primeiro, foi difícil. Eu tinha medo do preconceito lá fora. Acho que é uma preocupação de qualquer mãe. Aí, eu e meu marido, os outros irmãos, fomos nos unindo. Sofremos no começo. Eu, por medo, e o pai deles, por não entender o porquê. Não cheguei a procurar profissionais, mas tive pessoas que fizeram papel de psicólogos. Falavam que meu filho não tinha defeito nenhum, mesmo que eu soubesse. Era o que eu precisava, pois sentia falta dessa conversa de mãe para mãe. Por isso, é tão louvável esse projeto. A conversa faz bem, e tenho vontade de compartilhar isso com outras mães. Eles precisam da força da gente. Esse apoio é fundamental. Onde vão procurar ajuda? Na rua? A gente precisa deixar de preconceito e enxergar o quanto nossos filhos são perfeitos.



" Hoje minha filha não sente mais medo de mim"

Foi pela publicação no Diário, no dia 6 de abril, que a professora aposentada Enilza Facco, 66 anos, procurou o projeto. Pensava ela, antes de sair de casa, que seria uma palestra, algo expositivo. Mas, ao sair da primeira roda de conversa com outras mães, abria-se ali um novo olhar.

Antes, a relação com a filha, hoje com 25 anos, passou por momentos conflituosos na chegada da adolescência. O diálogo era abreviado com a jovem que se mostrava reservada, e a sensação de Enilza era como se todos soubessem de algo já explícito, menos ela. Até que um dia, cerca de quatro anos atrás, a filha revelou: gosto de meninas. Para a aposentada, criada sob o conservadorismo de um pai de origem italiana, conceber anotícia não foi simples, mas assimilada gradativamente à base do amor:

- Sou de outra geração, mas achava que aceitava bem a questão dos homossexuais, pois muitos amigos dela são, e eu convivi a vida toda. Amo minha filha, só que, quando é dentro da casa da gente, é diferente. Não cheguei a me culpar de nada. A partir do projeto, abri minha cabeça e até vou sair no jornal. E não me importo com os outros. Me arrependi porque não procurei desabafar antes. Conversamos, e, hoje, minha filha não sente mais medo de mim, acho que sente amor. Quero que ela traga uma namorada aqui, que se sinta à vontade. Amor de mãe é incondicional. E minha filha é maravilhosa. Tenho um casal de filhos e agradeço a Deus por eles. 


"Maior medo é de alguma violência contra minha filha" 

- Liguei, e ela ficou orgulhosa de eu ter procurado o projeto. A experiência de ouvir outras mães foi muito bom, até queria poder ajudar outras. No início, tive de procurar ajuda com parentes e profissionais. Lembro do dia que eu parei o carro na rua, e ela me contou: eu namoro outra menina. Era adolescente e já se abria, fazia algum tempo, com a vó. Sempre foram muito próximas. Pra mim, foi um baque, mas hoje só a felicidade dela importa. Meu marido ainda tem restrições. Ela tem namorada, e elas saem de mão, postam fotos no Facebook. Sempre me preocupei com a aceitação social, que alguém pudesse agredi-la, pois as pessoas ficando olhando diferente. Acontece que, atualmente, parece que a homofobia está ainda pior, e meu meu maior medo é de alguma violência contra minha filha.

Quando fala da filha, a enfermeira aposentada Neuza Severo, 61 anos, derrama elogios. A jovem trabalha, estuda, namora. É antropóloga e militante das causas LGBTs. É, sobretudo, a melhor filha que Neuza poderia ter.


"Tu estás feliz? É só isso que importa!" 

A dona de casa Andréa Ribas Lameira, 46 anos, não faz rodeios ou usa meias palavras para falar da filha bissexual, que namora um transexual. O relacionamento já dura seis anos. O papel de sogra até se confunde com o de mãe. Diferentemente da família do genro, foi ela quem o abraçou, acompanhou e até hoje o acompanha. Chorou na formatura dele, em janeiro deste ano, apoiou no processo delicado de troca de nome, no acompanhamento psicológico, no dia a dia. Indignou-se quando soube de atos preconceituosos dos próprios psiquiatras, de constrangimentos frente a farmacêuticos que se negaram a vender medicação para o tratamento hormonal.

Durante a exibição do documentário resultado pelo projeto, ao lado da filha e do genro, emocionou-se pela história de ambos, mas confessou: "todo tempo pensei mais nele do que nela".

Casada, além da filha de 22 anos, tem outro menino de 8. O marido "não entendia" a relação no início. Hoje, a convivência é familiar e amistosa.

- Para mim, é algo natural. Sempre encarei com tranquilidade. Sou espírita. Somos todos iguais e temos que nos respeitar. Sendo filhos, temos que dar amor. Quando minha filha me disse que namorava uma menina ( antes da transição para menino), só perguntei: "Tu estás feliz? É só isso que importa!"


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