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Júlio de Castilhos

Fraude milionária que levou cerealista à falência durou 6 anos, conclui inquérito

17 Outubro 2017 23:00:00

32 pessoas foram indiciadas pela Polícia Civil por esquema de desvio em Júlio de Castilhos 

Gabriela Perufo

Mais de três anos depois de um dos proprietários da Agrodeltha, ceralista de Júlio de Castilhos, registrar um boletim de ocorrência na polícia relatando possíveis irregularidades na compra e venda de soja, a Polícia Civil concluiu as investigações. 

 Santa Maria - RS - Brasil 18/10/2017Investigação do desvio de sacas de soja Santa Maria - RS - Brasil 18/10/2017Investigação do desvio de sacas de soja na Agrodeltha. Na foto: delegada Alessandra Padula, que conduziu as investigações do caso.
Em coletiva de imprensa, delegada Alessandra Padula (direita, em pé) explicou como funcionava o esquemaFoto: Lucas Amorelli / New Co DSM

Na manhã desta quarta-feira, a delegada Alessandra Padula, detalhou como funcionava o caso durante uma coletiva de imprensa no Centro de Cultura Álvaro Pinto, em Júlio de Castilhos (acompanhe a gravação da coletiva feita pelo Diário). Os nomes das 32 pessoas indiciadas pelos crimes de furto qualificado, falsidade ideológica, associação criminosa,  crime contra a ordem tributaria, e crime contra o sistema financeiro nacional não foram divulgados porque o caso corre em segredo de Justiça.

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Conforme a delegada, foram analisadas 141 contas bancárias e 90 depoimentos foram tomados para chegar aos indiciados. O esquema lesou a cerealista e produtores rurais em mais de R$ 7,5 milhões e durou pelo menos seis anos (de 2009 a 2014).

 - A gente não pretende esgotar o assunto Agrodeltha. A empresa está em processo de recuperação, de falência. Esses valores (os R$ 7,5 mihões) eu já adianto que são os valores que a gente apurou neste inquérito, não são o total desviado da empresa. Com certeza, os valores apurados durante o processo de  falência serão bem maiores - afirmou a delegada. 

Entre os indiciados estão dois ex-funcionários da cerealista, a ex-mulher e ex-sogra de um deles. Um dos ex-funcionários seria o mentor do esquema.

 Os outros indiciados serviram como "laranjas" no esquema: eles possuíam bloco de produtores rurais e os emprestavam, assim como suas contas bancárias, para vender grãos de soja que nunca existiram fisicamente, ou seja, era "soja virtual". A maioria dos indiciados não é produtor rural, mas, mesmo assim, tinha bloco de produtor rural para ter acesso a benefícios como empréstimos e financiamentos bancários, o que justifica o grande número de pessoas apontadas pela polícia. 

COMO FUNCIONAVA O ESQUEMA
Conforme o inquérito policial, o mentor do esquema seria um funcionário de confiança da cerealista. A fraude, segundo a apuração da Polícia Civil, era feita a partir de emissão de novas fiscais pelo mentor do esquema. Ele assinaria os contratos de compra de soja atestando que o produto tinha sido entregue à cerealista pelos supostos produtores rurais, que atuavam como laranja. O pagamento era feito na conta dos laranjas, mas a soja não era entregue.

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O curioso é que os contratos nunca foram assinados em nome da Agrodeltha, e sim, em nome do mentor do esquema. Os contratos falsos circulavam junto a compras legais e reais e, por isso, a polícia acredita que foi possível mascarar a fraude por tanto tempo. Segundo a delegada, o esquema foi descoberto depois que um dos dois donos se deu conta que o dinheiro pago pela soja não equivalia ao volume de produto estocado na cerealista. 

 Santa Maria - RS - Brasil 18/10/2017Investigação do desvio de sacas de soja Santa Maria - RS - Brasil 18/10/2017Investigação do desvio de sacas de soja da cerealista Agrodeltha em Júlio de Castilhos
Cerealista deve a falência decretada em março de 2015Foto: Lucas Amorelli / New Co DSM

O funcionário que esquematizava as notas fiscais ganhava R$ 1,7 mil de salário, e sua ex-mulher relatou à polícia que não trabalhava. O casal, porém, movimentou, entre os anos 2013 e 2014, mais de R$ 200 mil em compras de móveis, eletrônicos, roupas, calçados, pet shop, viagens, cartão de crédito e parcelas de consórcios. 

OUTRA CEREALISTA
O golpe também teria envolvido uma outra cerealista, que mantinha parceria com a Agrodeltha. 

- Ele (0 mentor) usava o bloco de produtora rural da sogra dele. Como ele não podia usar o nome da sogra para vender soja para a Agrodeltha, porque saberiam que ela não produzia um só pé de couve, ele vendeu soja em nome dela para a outra empresa. Quem pagou todo o prejuízo foi a Agrodeltha - detalhou a delegada.

O DESTINO DO DINHEIRO
Em alguns casos, 100% do dinheiro que era pago ilegalmente aos laranjas ficava com o mentor do esquema. Em outros casos, o valor era dividido entre o mentor e o laranja. A Polícia não identificou um padrão de como a divisão era feita. Em cada caso, era um acerto diferente. 

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Na época que as investigações começaram, a Polícia Civil chegou a pedir duas prisões preventivas de dois funcionários da empresa, mas elas não foram cumpridas por ser período eleitoral. 

_ Depois, não houve mais prisões porque não havia os critérios necessários para a Justiça conceder os pedidos _ explicou a delegada. 

Nenhum dos indiciados está preso. Durante a coletiva de imprensa, produtores rurais comentavam que o mentor do esquema ainda mora em Júlio de Castilhos.

OS LESADOS
Assim que o esquema veio à tona, ainda em 2014, os produtores que tinham soja armazenada na cerealista quiseram vender o produto, para evitar prejuízos. Com isso, a empresa não teve dinheiro para pagar todos os produtores que tinham soja armazenada e até tentou parceria com outras empresas, sem sucesso. Assim, a solução foi dar entrada com processo de falência. Estima-se que mais de 100 produtores deixaram de receber nesta época. 

Até hoje, a Polícia Civil não sabe informar o número de produtores rurais lesados no esquema. Isso porque a maioria não registrou ocorrência. Somente 13 registros policiais foram feitos por produtores informando do caso. 

Ainda há tempo de quem se sentiu lesado informar que perdeu dinheiro. A orientação é que os produtores busquem a Justiça para ingressar como credor no processo de falência. 

A reportagem entrou em contato com Daniel Feijó, advogado que representa a Agrodeltha. Ele informou que desde que o esquema veio à tona o caso foi registrado pelos proprietários na Polícia Civil mas que também foi investigado internamente e o relatório das auditorias que foram feitos foram entregues à investigação. Ele disse que os proprietários estão satisfeitos com o resultado do inquérito e aguardam o resultado judicial. 


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