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Histórias de natal reveladas por 7 guirlandas

23 Dezembro 2017 11:45:00

Valquiria não acredita em Natal, não tem batatinha para dar as filhas na ceia, mas respeitou o pedido das meninas

Pâmela Rubin Matge e Suelen Soares



A origem do Natal, seus símbolos e rituais perpassam a história e carregam a dicotomia de elementos religiosos e pagãos. Do nascimento de Jesus Cristo à figura do Papai Noel, da troca de presentes até a tradição de símbolos como o presépio e a árvore. Tudo soma-se ao mobiliário urbano, onde o consumismo protagoniza a maioria dos cenários. Um ornamento, porém, parece prenunciar, como nenhum outro, a época natalina a partir de uma mensagem visual fixada na porta: a guirlanda. Também presente em estabelecimentos, prédios públicos e instituições, é nos lares onde ela mais aparece. Vista de fora, desdobra-se em sentidos diversos para quem está no lado de dentro.

Nos últimos dias, a reportagem do Diário percorreu diversos bairros de Santa Maria e voltou o olhar para as tantas portas encontradas no caminho que estampavam o adereço. Algumas foram abertas e revelaram a visão de Natal e as escolhas de cada família, que, a sua maneira, materializou a data a partir de um enfeite na porta da frente. Confira nesta e nas próximas páginas histórias que contam um pouco do significado das guirlandas para quem as escolheu. 

VALQUIRIA NÃO ACREDITA EM NATAL...

...Mas tem uma guirlanda na porta de casa. Ela também não acredita em Papai Noel e no encanto do período natalino, que muitos preservam por devoção ou mera repetição. A dona de casa Valquiria D'Avila da Silva, 28 anos, tem cinco filhas: Gisele, 10 anos; Marisa, 9; Amanda, 7; Érica, 4, e Emanuely, 2. As meninas não só acreditam como também esperam pelo Bom Velhinho. 

Contudo, a descrença de Valquiria não aniquila a resistente capacidade de sonhar das filhas. Quando, na última semana, Érica chegou da rua com a guirlanda e lembrou que "estava perto do Natal", a mãe logo pendurou o objeto. "Foi presente do tio", disse a menina. A propósito, esse é o único enfeite que remete à data no imóvel de dois cômodos onde a família mora há cerca de oito anos, no Bairro Nova Santa Marta.

_ Posso ser bem sincera? Para mim, o Natal morreu desde que minha mãe e meu pai se foram. Não existe. Coloquei ali na porta porque penso em só agradar as gurias, que esperam pelo Papai Noel, mas não sei se ele vem _ diz a dona de casa, levantando a dúvida sobre a presença do Bom Velhinho.

Enquanto o 25 de dezembro não chega, Valquiria vive a passagem dos dias resignada. Se algum presente aparecer, será de um vizinho ou desconhecido. Há meses, ela aguarda por um dinheiro prometido pelo pai das meninas, que não mora com elas, mas não o dá como certo. Se receber, o que ela mais espera é de apenas ter a dignidade de fazer uma ceia junto das filhas. Mas nada de panetones e perus. Valquira já se realiza se conseguir comprar batatinhas para o Natal:

_ Se eu receber esse dinheiro aí, quero comprar umas batatinhas, que é o que as gurias gostam. E fazer uma janta gostosa, com maionese. Se não der, ano que vem é outro ano.


DO LIXO PARA A ALEGRIA DA CASA

Na Rua das Rosas, no Bairro Patronato, uma casa chama a atenção de quem passa. E não é pela cor rosa da residência, que combina com o nome da rua, mas, sim, pela decoração natalina que praticamente toma conta de toda a porta de entrada da casa.

Além dos festões de Natal cor de prata, na grade da porta impera, majestosa, uma guirlanda vermelha com um barbudo Papai Noel. Um adereço que ganhou um significado muito bonito para a dona da casa, a auxiliar de limpeza Silvia Barcelos Carvalho, 52 anos. Ela conta que retornava para casa há dois anos quando encontrou o enfeite em uma lata de lixo na Rua Tuiuti, no Centro.

De acordo com ela, que tem 10 filhos, 29 netos, e dois bisnetos, o achado chegou para alegrar a vida dela e das crianças, que são o real motivo dos enfeites natalinos pela casa.

_ Eu gosto muito de Natal, mas eu faço isso mais pelas crianças. Por isso, quando eu encontrei essa guirlanda no lixo, logo pensei em trazer para casa. O ano passado foi o primeiro ano que usei _ comenta Silvia, enquanto afaga o enfeite como se fosse algo muito precioso. E para ela, de fato, é.

No mesmo terreno em que está a casa da dona Silvia, também está a casa do filho e da nora. Na porta da casa deles, há uma guirlanda confeccionada pela auxiliar de limpeza, cujos itens para compor o enfeite também foram encontrados no lixo.

_ Eu fiquei tão feliz de montar a guirlanda para minha nora, e o melhor que foi tudo com coisas que eu achei. E eu fiz já faz umas duas semanas _ conta, orgulhosa.

A auxiliar de limpeza mora em uma casa humilde, sem luxo algum. Mas, nem por isso, economiza sorrisos. Silvia diz que gosta muito desta época e das casas enfeitadas. E explica por que a sua não recebeu a decoração completa neste ano.

_ Antes, eu fazia mais coisas. Colocava luzinhas na frente da casa, mas, aí, fiquei sem luz, porque não consegui pagar. Mas eu gosto de Natal, porque é o nascimento de Jesus _ conclui.


UM ELO ENTRE MÃE E FILHA

Depois de quatro anos, a manicure Ana Helena Fagundes Morais, 46 anos, voltará a passar o Natal ao lado da mãe, Maria Cedenir, que estava internada em uma clínica de repouso. A mãe é acamada, teve uma perna amputada em decorrência do diabetes e necessita de cuidados especiais.

_ Sou filha única e eu não tinha como deixar de trabalhar. Agora, moramos eu, ela, o gato, os cachorros. Meu filho tem a casa ali nos fundos. Neste ano, que foi difícil, também ganhei coisas boas. A melhor foi esse presente, que é trazer minha mãe de volta para perto de mim _ contou a manicure, sem conter as lágrimas.

Outro presente que Ana ganhou da própria mãe anos antes de ela ser internada foi o que manteve vivas as lembranças familiares quando a ausência e a saudade apertavam no peito:

_ Essa guirlanda que está aí, ganhei dela. Sempre esteve comigo em todos os Natais para eu não esquecer da mãe. Aprendi com ela e sempre monto o pinheiro, enfeito tudo, mas a guirlanda é sempre a primeira coisa que vai para a porta. Espero que as pessoas olhem para ela e se contagiem de bons sentimentos.


DE CORAÇÃO ABERTO

A aposentada Ivoni Duran, 60 anos, mora há 42 anos no Bairro Patronato e, segundo ela, sempre enfeitou a casa com os adereços natalinos, entre eles, as guirlandas.

Dona Ivoni conta que, ano a ano, ela dá uma incrementada no enfeite, pois, de acordo com ela, o Natal é uma data que é sempre comemorada em dobro pela família. A primeira razão é pelo nascimento de Jesus Cristo. E o segundo, pelo nascimento da filha Raquel, que neste ano completa 36 anos.

_ Eu sempre gostei de enfeitar a casa e, em todos os anos, eu procuro mudar um pouco os enfeites. Principalmente, a guirlanda, porque ela acaba desbotando com o sol. Mas, para nós, é sempre uma festa, porque eu ganhei a minha filha de presente de Natal _ afirma.

Ela não tem preferência pelo material utilizado, já teve de vários tipos e está sempre pesquisando sobre novos enfeites, inclusive, alguns pendurados pela casa foram feitos a partir de tutoriais na internet. A aposentada revela que não sabe o real significado de uma guirlanda, mas ela explica que sempre gostou de utilizá-la como um sinal de boas-vindas para as pessoas que chegam ou que apenas passam em frente a sua casa.

_ Com a guirlanda, eu entendo que nós queremos dizer que estamos alegres e com o coração aberto para receber as pessoas _ enfatiza Ivoni.


A COLECIONADORA DE GUIRLANDAS

A vizinhança já conhece bem a casa mais enfeitada do quarteirão, que fica quase na esquina da Rua João Delazzano, na Vila Brasília, no Bairro Salgado Filho. Na Copa, nas festa juninas sempre tem alguma decoração, mas nada que se compare ao Natal, principalmente, porque o local é endereço de uma colecionadora de guirlandas. Para o Natal de 2017, a cozinheira Neiva Regina da Silva, 53 anos, confeccionou oito. Elas estão dispostas até na porta dos quartos. As preferidas e mais incrementadas ficam na parte da frente do imóvel. Mal começa dezembro, e Neiva já tem estoques de material. Chega a comprar itens escondidos do marido e dos filhos, que consideram exagero a quantidade de ornamentos.

_ Natal é renovação, época que nos enche de esperança. Sou espírita e acredito nisso. Quando os guris (filhos) eram pequenos, enfeitava a casa ainda mais. Durante o ano, deixo na porta um olho grego para dar sorte e uma guirlanda de bem-vindos. Na Páscoa, coloco outra. As de Natal, eu mesma faço, e nenhuma é igual a outra. Ter essas guirlandas é como se fosse fazer um convite e mostrar que a casa está pronta para receber alguém. E deu certo. Vocês (reportagem) olharam para elas e chegaram aqui _ resume a cozinheira.


AMOR PELA DATA

Há mais de 40 anos, a dona de casa Luiza Martins, 75 anos, enfeita sua casa com as guirlandas de Natal que a filha Eliziane Martins, 45, produz na Escola Antonio Francisco Lisboa. Ela tem deficiência mental e, desde os 3 anos, frequenta a escola, que já tem como tradição fazer com que os alunos produzam as guirlandas anualmente. Com velcro, algodão e enfeites natalinos, dona Luiza acredita que o símbolo é uma forma de expressar seu amor pela data.

_ A cada ano, coloco um diferente. É um sinal de luz, é o nascimento de Cristo. A pessoa que passa na rua vai saber que a gente acompanha, festeja a data _ observa dona Luiza.


GUIRLANDAS RESSIGNIFICADAS 

A porta do apartamento 201, onde a farmacêutica Daniela Souza da Silva, 28 anos, mora com o marido e o filho, está enfeitada para o Natal desde a tarde do dia 6 de dezembro. Ao subir dois lances de escada, porém, não são encontrados topes e sinos dourados, mas, sim, um pedaço de papel com desenho colorido pelo pequeno João Henrique da Silva Paz, 5 anos.

Ainda que a expectativa pela visita do Papai Noel e seus presentes deixe o menino cheio de curiosidade, a farmacêutica deseja que a data seja lembrada menos pelo apelo comercial e mais pelo caráter fraternal, no qual a diferença entre preço e valor sejam compreendidas desde cedo. A "guirlanda", que, para ela, é uma tradição e denota boas-vindas, neste ano não está, necessariamente, atrelada a formas e modelos:

_ Sou de Alegrete, e passaremos o dia 25 lá. É de família, sempre enfeitamos a casa, mas procuro valorizar o que o João faz. Tento mostrar que Natal é estar perto da família, é amor e pode estar nas coisas simples. Neste ano, em vez de comprar uma guirlanda pronta de R$ 100, fizemos algo diferente. Colamos o trabalhinho dele na porta para fazer uma surpresa para o pai quando chegasse em casa. Ele adorou. Isso também significa boas-vindas e o espírito de Natal.


ARTE E HISTÓRIA
Os materiais, as cores e as formas são os mais diversos. Galhos, madeira, plástico, ferro. Até quadradas, algumas guirlandas chegam a ser produzidas. Sinos, estrelas, botinas, bolinhas, pedrarias e brilhos costumam integrar o ornamento.

Conforme registros históricos e a própria crença popular, antes mesmo do nascimento de Cristo, o adorno era presente em rituais pagãos realizados no solstício de inverno no Hemisfério Norte para dar "boas-vindas" aos deuses. Assim, as guirlandas eram consideradas sagradas e, por isso, eram feitas com ramos de pinheiros, azevinhos, heras ou de outras árvores e plantas consideradas poderosas.

Na Alemanha, por volta do século 19, os colonos comemoravam a chegada do Natal acendendo grandes fogueiras. Aos poucos, o costume foi difundido, sendo levado para dentro das casas, porém, em miniatura, criando-se, assim, a guirlanda. Pouco tempo depois, o Cristianismo se apropriou do símbolo e deu um significado também religioso a ele.

_ Muitas festas e símbolos do universo pagão foram incorporados ao Cristianismo. A guirlanda chegou ao Brasil pelos alemães e outros colonizadores europeus. Na Europa, era atrelada ao fogo e utilizavam velas na cor branca. Aqui, ficou mais colorida pela influência da religião e da cultura negra e indígena _ explicou a professora do curso de História Roselaine Casanova Corrêa.

Na visão católica

Para os cristãos, é no Natal que é recordado e celebrado o nascimento de Jesus Cristo. O arcebispo da Arquidiocese de Santa Maria, dom Hélio Adelar Rubert, explica que as guirlandas de Natal postas na porta simbolizam o acolhimento das famílias a Jesus, que renasce no coração da sociedade:

_ Quando você coloca a bandeira do Brasil hasteada é porque você vai homenagear a Pátria. Então, a guirlanda nas portas é para celebrar e lembrar esse símbolo natalino. Neste momento, são preparados o nosso coração, a nossa família e a sociedade para celebrar a fé, a caridade e a reconciliação.


O MESTRE DAS GUIRLANDASO mestre das guirlandas

Do mesmo modo que o Carnaval de Santa Maria perdeu um grande artista, as festividades natalinas também perderam um pouco do seu brilho. O artista plástico Carlos Alberto Flores Mallet, que morreu em agosto do ano passado, sempre será lembrado quando o assunto for Natal, principalmente, guirlandas.

E não era qualquer guirlanda. Mallet abusava do luxo, que tornava as suas produções tão exuberantes. Formado em Artes Plásticas na Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, Mallet teve o seu trabalho fixado em muitas casas e empresas santa-marienses, e, segundo o irmão dele, o aposentado Paulo de Tarso Flores Mallet, 66 anos, o artista fazia guirlandas a partir de um trabalho de pesquisa.

_ Ele era um homem extremamente criativo e sempre tinha o dom de transformar tudo. Ele pesquisava, procurava saber o que significava cada elemento utilizado nas guirlandas, como as cores e as pombas _ explica Paulo de Tarso.

O aposentado comenta que os ornamentos que o irmão produzia eram verdadeiras obras de arte e que estão fazendo falta na cidade. Segundo Paulo de Tarso, o artista produzia as guirlandas e os demais enfeites e arranjos de Natal por amor a arte.

_ O Carlos não pensava apenas no valor enquanto dinheiro, e, sim, no que aquela guirlanda representava. A nossa família sempre gostou de Natal, mas ele tinha essa capacidade criativa, ele amava o que fazia _ relembra.


EXPEDIENTE

reportagem

PÂMELA RUBIN MATGE
SUELEN SOARES

edição
THAISE MOREIRA

fotos
CHARLES GUERRA
GABRIEL HAESBAERT
LUCAS AMORELLI

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