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5 anos de aprendizado

26 Janeiro 2018 19:00:00

Foto: Maiara Bersch (Diário, Arquivo)

Em meio ao caos e à dor, pais, familiares e sobreviventes do incêndio aprenderam. A lutar, a se reerguer, a caminhar, a continuar, a viver. Santa Maria também aprendeu a cuidar da saúde de seus filhos. Após o incêndio, a mesma cidade que sucumbia sonhos juvenis, ergueu-se, em um primeiro momento, com uma força de voluntariado que a fez continuar.

REFERÊNCIA EM ATENDIMENTO 

Foto: Ronald Mendes (Diário, Arquivo)

Dos profissionais gabaritados na área da saúde, do reconhecido trabalho da Cruz Vermelha e de decisões acertadas e ações coletivas, a cidade virou referência. O exemplo é o trabalho do Centro Integrado de Atendimento às Vítimas de Acidentes (Ciava), um termo de cooperação entre Hospital Universitário de Santa Maria (Husm), prefeitura, Secretaria Estadual de Saúde e Ministério de Saúde, criado após a tragédia, já fez 18.204 mil atendimentos. O centro auxiliou, inclusive, profissionais que atenderam as crianças vítimas de um incêndio em uma creche em Janaúba (MG), em outubro do ano passado.

Outra inicativa, o Acolhe Saúde, criado em 2013 para serviços de atendimento psicossocial aos sobreviventes e familiares, possibilitou a cobertura e o fortalecimento do programa de saúde mental. Para este ano, o prefeito informou que o Acolhe Saúde será ampliado e melhorado recebendo a nova denominação de Santa Maria Acolhe, com uma nova sede e um espaço mais amplo.  

Mesmo com bons exemplos, o acompanhamento de diversos pacientes precisa ir além. Ainda há obstáculos doloridos e entraves judiciais no caminho. Os sobreviventes falam por si.

"ACOSTUMEI, MAS NÃO ACEITEI" 

Foto: Carlos Queiroz (Diário, Arquivo)

Uma condição vitimista frente à tragédia sempre foi combatida pela terapeuta ocupacional Kelen Fereira, 24 anos. Passo a passo, a jovem caminha para ser uma profissional melhor onde trabalha, no Hospital Escola da Universidade Federal de Pelotas _ Ebserh, para ser uma amiga solidária e uma filha presente.

Sobrevivente daquele 27 de janeiro de 2013, ficou 15 dias em coma e teve a perna direita amputada abaixo do joelho. Com 18% do corpo tendo sofrido queimaduras, ainda usa malhas para proteger a pele que ficou ainda mais sensível ao sol, a batidas e arranhões. Ela é uma entre o grupo de oito amigos que saíram naquela noite. Três morreram. 

_ Às vezes, parece que não aconteceu. É inacreditável pessoas terem morrido por erros de outras. Perdi um pouco da autoestima, ainda não a recuperei, mas eu tinha duas escolhas: ficar chorando ou continuar, que foi minha opção. Acontece que, em todo janeiro, passa um filme na cabeça. Meus pais sofrem, pois os médicos chegaram a dizer que tinham feito tudo e só restava rezar. Eu lembro de tudo, até do momento de ser entubada e estar com sandália verde-água que ficou no pé direito, onde eu sentia muita dor. O tempo congela, e eu fecho os olhos e lembro até das nossas risadas _ lembra a sobrevivente. 

Kelen sente que a caminhada é interrompida quando a Justiça parece andar para trás. Ela está processando o Estado e o município para ser ressarcida. A prótese que usa já estragou duas vezes. É uma prótese biônica, não pode ser molhada, e, em dias de chuva, nem mesmo a bota de borracha protege completamente da água. Uma estava na garantia, a outra, o conserto saiu R$ 4,5 mil. A isso, soma-se o reparo do Liner, uma peça que encaixa a prótese ao corpo e custa R$ 2,7 mil. 

_ Eu digo sempre que acostumei, mas não aceitei. Cinco anos, e nada foi feito, daqui a pouco são 10, 20...

"HOJE É NOSSO DIA DE CHORAR" 

Foto: Charles Guerra (Diário, Arquivo)

_ Tem dias que a gente acorda, se olha, vê que não está bem, mas aí dizemos um para o outro: hoje é nosso dia de chorar _ conta o aposentado Paulo Flores, o pai de Luiz Eduardo Viegas Flores, o Dudu, uma vítima da Kiss.

Permitir-se a extravazar os sentimentos ainda é um aprendizado contante para Flores:

_ Agora que comecei a "me soltar'. Antes, asistia a uma comédia ou dava uma gargalhada e parece que algo me punia, que eu me culpava, por estar feliz, mesmo meu filho não estando aqui.

O menino expansivo e de espírito agregador estava com 24 anos e cursava faculdade de Direito e sonhava em ser promotor. Estava estagiando no Fórum de Três Passos, região Noroeste do Estado, há três meses. Quando estava em casa, em Santa Maria, dificilmente ficava sozinho. Reunia a gurizada em noitadas de churrasco e festa, que invadiam a madrugada. "Era um entra e sai", lembra o pai. 

O dia que antecedeu a ida na boate Kiss, Dudu parecia estar ainda mais carinhoso. Compartilhou com a mãe, a qual era confidente, suas dores, amores e expectativas. É aquele momento, aquele olhar e aquela voz que Aurea Flores diz guardar para sempre na memória: 

_ Ele aproveitou a vida: estudou, trabalhou teve um amor. Eu tenho a impressão que parei naquele dia, que eu vivi uma outra época com ele. Mas daí eu penso nas pessoas que também sofrem por isso e são solitárias. Aí me fortalecendo na fé, e nos fortacendo um no outro, eu sigo a vida.

"CADA FELIZ ANIVERSÁRIO DÓI EM MIM" 

Foto: Lucas Amorelli (Diário, Arquivo)

Luísa Jornada Koop, 25 anos, saiu sem nenhum arranhão no corpo, mas cicatrizes invisíveis na alma. Há cinco anos, ela e mais uma turma de 18 pessoas, entre ex-colegas de escola e amigos de infância, foram à boate Kiss para comemor seu aniversário de 20 anos. Oito deles não saíram de lá com vida. A coincidência das datas a transporta para a noite em que tudo aconteceu. Apesar de não conseguir dissociar as datas, ela esforça-se para que a saudade se sobreponha às perdas.

_ Hoje em dia, estou melhor. Neste ano, pedi até um bolo. Cheguei a me culpar, pois fui eu quem levei eles. Depois, com terapia, vi que não é assim. Por três anos, não consegui fazer nada. Cada pessoa que me dá parabéns, cada "Feliz Aniversário" dói em mim. Essa data marcou tanto, fez tão mal. E vai sempre fazer parte de mim. Hoje, o que eu tento, é que o sentimento de saudade seja o mais forte. 

Luísa cursava Publicidade e Propaganda, mas trocou para Psicologia. Ela pretende ajudar aqueles que precisam minimizar seus traumas e ressignificar a vida.

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