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Professora Alcione do Amaral é baluarte da resistência e amor à cultura carnavalesca em Santa Maria

13 Fevereiro 2018 15:00:00

Para a professora Carnaval não é apenas uma forma de lazer, mas sim uma ferramenta de transformação social


Foto: Charles Guerra

Alcione herdou do pai o amor pela festa mais popular do país

Nascida em Santa Maria, a história da professora aposentada Alcione do Amaral, 64 anos,e também da sua família, se confunde com a trajetória da escola de samba Vila Brasil, a agremiação mais antiga do Coração do Rio Grande, fundada em 1959. Entre os fundadores da escola, o senhor Agenor Alves do Amaral, pai da Alcione. A professora herdou dele o amor pela festa mais popular do país. Alcione é respeitada no meio carnavalesco e é uma das baluartes da folia em Santa Maria. Entre as suas características, está a personalidade forte e a incansável luta pela cultura carnavalesca. Para ela, Carnaval não é apenas lazer, mas, sim, uma ferramenta de transformação social. 

Diário - De onde vem sua ligação com o Carnaval?

Alcione - A minha inserção no Carnaval vem diretamente do meu pai. Ele nasceu em Alegrete e foi criado em Uruguaiana. E viveu sempre nesta função de Carnaval, aliás, minha família paterna sempre foi assim. Ele era militar, tocava na banda do quartel, então, onde ele ia, sempre estava envolvido em alguma coisa. Aqui, em Santa Maria, ele foi presidente da União Familiar, que era uma sociedade que, consequentemente, tinha Carnaval. Depois, ele, com os amigos, resolveu fundar a Vila Brasil. E eu tinha uma irmã, do primeiro casamento do meu pai, que era de Uruguaiana, então, ela vinha para cá todos os anos fazer fantasias. E ela tinha outra visão, porque lá sempre foi um Carnaval grande.

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Diário - Como foi crescer inserida em uma Escola de Samba? 

Alcione - Eu nasci em 1953, então, eu tinha 6 anos quando a escola foi fundada. Nós morávamos em uma casa e, nos fundos, era a Vila Brasil. Quando eu fiz vestibular foi um horror, a escola ensaiando e eu tendo que estudar. Mas eu desfilei somente uma vez quando era criança e só comecei a ajudar depois que me formei, com 22 anos. A minha mãe também gostava de Carnaval, mas ela frequentava mais as sociedades. Na verdade, ela tinha bronca com o Carnaval por causa do meu pai, porque ele não parava em casa (risos). Tanto que ela nunca foi em um ensaio da Vila. E ela me reteve muito, porque ela pensava assim: se essa guria se interessar muito por Carnaval, ela não vai estudar, então, ela me segurou até me formar. E com isso, eu não saía na escola.

Diário - E mesmo com toda a resistência da sua mãe a senhora ainda foi rainha do 13 de Maio? 

Alcione - Eu fui Rainha Infantil do Clube 13 de Maio com 9 anos, Depois, Rainha Adulta, em 1970. E aí tem uma história inusitada. Saí para ir a um baile no 13 de Maio e fui eleita a rainha de lá. Minha mãe ficou numa tristeza e ainda fui recomendada pelo meu pai, que disse que se, por acaso, me convidassem,não era para eu aceitar. Para convencer o meu pai, a diretoria do clube teve que ir lá em casa.

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Diário - E a senhora chegou a concorrer a Rainha do Carnaval de Santa Maria? 

Alcione - Sim, mas o problema daqui de Santa Maria sempre foi o racismo. Naquela época dividiam o concurso de Rainha do Carnaval entre Centro e bairro. Mas como o 13 de Maio ficava no Centro, eles tinham que nos aceitar. A minha irmã veio de Uruguaiana e nós fomos na casa de uma cliente da minha mãe e passamos uma tarde olhando a coleção de revistas Cruzeiro e Manchete que ela tinha. E achamos uma fantasia chamada Deusa de Watusi e a fizemos. Na primeira noite, concorri e saí 1ª princesa do Centro. Todo mundo dizia que eu não venci por causa da cor. E depois no concurso de fantasia, a moça que a mãe bordou a fantasia ganhou 1º lugar em luxo e eu em originalidade.

Diário - Qual a sua lembrança mais emocionante de Carnaval? 

Alcione - A lembrança mais marcante é de 1985, quando a escola homenageou o meu pai. E como ele já tinha tido um derrame eu sai junto, à frente do carro, para cuidar dele. Naquele ano, a Vila Brasil foi campeã. O Carnaval foi em fevereiro e meu pai faleceu em abril.

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Diário - O que a senhora acha do Carnaval de Santa Maria, atualmente?

Alcione - Já fizeram carnavais bem melhores. Eu acho que os mais antigos eram mais interessantes. Até porque eram mais pobres. As pessoas saíam porque elas gostavam. Mas, infelizmente, chegamos no patamar de sermos cobrados como no Rio de Janeiro. Com todos os quesitos exigidos, baiana, comissão de frente e isso inflacionou o fazer Carnaval. Claro que, ao mesmo tempo, o Carnaval cresceu, pois temos carnavalescos formados que entendem, pesquisam.

Diário - O que é o Carnaval para a senhora?

Alcione - Eu tenho uma visão um pouco diferente dos meus pares, porque eu vejo o Carnaval pelo lado social. O meu sonho é encaminhar essa gurizada, principalmente as mulheres, e as pessoas que não têm condições. A minha briga é mais social, por isso, eu trabalho na escola e faço qualquer coisa. Eu penso no que ela proporciona para aquela comunidade que não pode ser sócia das Dores, não tem dinheiro para viajar para o Rio de Janeiro, que não tem nada. Então, a Escola de Samba é o espaço delas. Tem uma história que eu sempre gosto de dar como exemplo. Tem um catador de lixo que eu encontro com ele sempre, carregando aquela carroça. E ele é da minha escola. Tu notas que ele vai para casa no final do dia, toma banho e vai para a escola. E dança uma noite toda sozinho, e ele é da bateria. Eu uso ele como exemplo, porque ele precisa ter um lazer. Eu tenho até exagero de achar que a violência diminui com as escolas de samba.


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