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sociedade

Marielle Franco: - plantou, colheu!

09 Maio 2018 15:30:00

Colunista fala sobre a disseminação de fake news após o assassinato da vereadora

Infelizmente, a morte da Vereadora Marielle Franco, do PSOL/RJ tem servido para revelar o quanto nós, humanos, temos de pior, ao publicarmos nas redes sociais discursos de ódio e de intolerância, comprovando nosso desprezo aos herdeiros dos escravizados de ontem, os pardos, os pretos, os pobres, os favelados, de hoje, como afirma Jessé Souza em seu livro "A Elite do Atraso".

As redes sociais mais parecem campo minado, prestes a explodir, disseminando ódio e tentando culpabilizar a vítima. Como argumento, alguns internautas recorreram a uma carta de Paulo aos Gálatas (6:7) e afirmam que a tragédia, que se abateu sobre Marielle, foi resultado de seus maus atos: -"Plantou, colheu!" Fico a me questionar se podemos afirmar com convicção que foi isso mesmo. Senão vejamos:

Sobre o amor incondicional pelos filhos, pelos demais seres e por nós mesmos

Marielle corajosamente denunciou as arbitrariedades cometidas por membros do 41º Batalhão da Polícia Militar, quando no dia 10 de março último, policiais cercaram Acaraí com três caveirões, gritando: "- só vamos embora quando tiver dois ou três corpos no chão! Viemos tocar o terror"! Atirando para o alto e em direção aos moradores, agentes do Estado invadiram casas, quebraram portões e fotografaram identidades.


Foto: Divulgação

Ela sempre esteve ao lado das famílias de policiais mortos ou acidentados, em especial, quando foi Coordenadora de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Estado. Ilustro com a narrativa de Dona Rose Vieira, mãe de Eduardo Oliveira, policial civil assassinado. "Ela chegou ao Fórum de Duque de Caxias esbaforida, lembra Dona Rose, me abraçou forte. O abraço dela era gostoso, reconfortante. Disse que foi de trem até o local". Um encontro, que se consolidou em amizade. "Ela me ligava de vez em quando e dizia: vou aí na sua casa tomar um cafezinho, e passava a tarde aqui, conversando. Fui ao velório e ao enterro. Fizeram um mal para uma pessoa que só fazia o bem", lamenta Dona Rose.

Além de militante, Marielle era uma intelectual, cursou sociologia, fez mestrado em Administração, cujo objeto foi as Unidades de Polícia Pacificadora - UPP's, com o título "UPP - A Redução da Favela a Três Letras: uma análise da política de segurança pública do Estado do Rio de Janeiro". As UPP's são um modelo de ação policial voltado a enfrentar o crime organizado, nas favelas. Na pesquisa denunciou violações de direitos humanos, homicídios e propôs políticas públicas. Em certo trecho de sua dissertação, leio: "As marcas dos homicídios estão presentes no peito de cada mãe de morador de favela ou mãe de policial que tenha perdido a vida. Nenhuma desculpa pública, seja governamental ou não, oficial ou não, é capaz de acalentar as mães que perderam seus filhos" (p.97).

A banalização do ato de fotografar

A Vereadora sempre se colocou contra qualquer intervenção, justificando que quem sofre as consequências é o povo negro e favelado, desde o medo, os tiros, os gritos, o pânico, a violência física, o ruído ensurdecedor de tanques e caveirões, a morte.

Após a Intervenção Federal decretada em fevereiro, Marielle foi indicada relatora da Comissão da Câmara de Vereadores que iria fiscalizar e acompanhar a intervenção. E em entrevista à equipe da Pavio, no dia 19/02, Marielle falou dos "14 meses de incursão militar, não só da polícia militar, mas do Exército Brasileiro, da Força Nacional, de tanque blindado. Lembrando que o barulho do tanque ainda era muito latente, gerando medo e desespero, com a eminência de confronto a qualquer hora". Para Marielle, a Intervenção Militar, num período eleitoral, configurava uma manobra do MDB, para salvar o governo ilegítimo e de baixa popularidade, do Presidente Temer.

Passados dois meses do crime, pouco se sabe sobre as investigações. Falou-se de munição pertencente à Polícia Federal roubada na Paraíba; falou-se em federalizar as investigações; e uma jornalista descobriu que metade das câmeras, situadas no trajeto percorrido por Marielle e Anderson, havia sido desligadas, poucas horas antes do crime.   

A partir desses breves apontamentos, questiono se é possível afirmar que Marielle colheu o que plantou. O que lhe parece?  

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