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cultura

Quantos anos cabem em um ano?

29 Dezembro 2017 18:35:00

Colunista faz uma reflexão sobre fracassos e vitórias na arte e na vida


O pano cai.

A luz se apaga.

O verbo cala.

A tinta seca.

A dança para.

As cordas não vibram mais.

O silêncio é instaurado.

E então? E depois?

Uma folha em branco.

Um palco vazio.

Uma nota ainda inaudita, um instrumento esperando ser tocado.

Uma tela, um pincel, um pigmento.

Uma câmera, um olhar.

Um movimento rasgando o ar e invadindo o espaço novamente.

Dois lados da mesma moeda.

Terminar e começar,

Duas linhas que se entrelaçam em uma dança espiral infinita.

A vida nos apresenta isso.

Se existem instantes onde queremos eternizar o momento, em outros tantos queremos que ele acabe logo.

O que a vida ensina é que algo sempre está acontecendo, o movimento não para.

Um ano termina e outro começa.

E existem muitos anos dentro de um ano. A vida de um artista, por exemplo, é cheia de muitos recomeços dentro de um ano.

Afinal, cada projeto nosso, independente do tempo que tenha é, por vezes, sentido como se fosse um ano. Muitas vezes, nós artistas contamos nossas vidas pelo que fizemos e não pelos anos cronológicos.

Deixe-me contar um pouco sobre isso.

Quando começamos um processo criativo, embora muitas vezes nem sempre saibamos quando começam, ou muito menos seu exato porque, nos sentimos com energia máxima.

Com planejamentos, e vontades mil.

Porém, muitas vezes coisas acontecem a nossa revelia.

E lá estamos nós, recém iniciando algo e já tendo que lidar com mudanças de planos.

Contudo, com os anos de lida nessa estrada artística, já aprendemos que na arte são costumeiros os desafios de mudar de rumo, de refazer a rota.

São necessários outros processos criativos para seguir.

E quem sabe eles nos tragam outros pontos de vista ainda inexplorados.

E assim, mudamos o arranjo, cortamos ou adicionamos um personagem na história, mudamos de figurino ou locação, por que precisamos e porque temos que agir frente aos desafios que nos foram impostos.

Afinal, nessa altura do trabalho já temos de certo modo, um "objetivo", uma data de estreia, um show marcado, ou uma data de lançamento.

Mas não se enganem que tudo nesse processo é leve ou tranquilo.

No ajuste de rotas, nem sempre sabemos o que estamos fazendo, nem sempre temos as melhores condições.

São nessas horas que começam a surgir dúvidas, angústias e anseios. E nos perguntamos se iremos conseguir fazer um trabalho melhor que o anterior (dentro do que nos propomos, obviamente).

Todavia, (sendo muito sincero com o leitor destas linhas) são inúmeras as vezes em que nos perguntamos se conseguiremos concluir o que estamos fazendo, se não iremos desistir, "fracassar". Não para os outros, mas "fracassar" para nós mesmos.

São nessas horas que os ensinamentos dos mestres aparecem, e Beckett nos sussurra ao ouvido: "Tenta. Fracassa. Não importa. Tenta outra vez. Fracassa de novo. Fracassa melhor".

E decidimos pelo risco, e agimos. E descobrimos que nós não acertamos, nem erramos ao tentar.

A arte não tem certo ou errado, viver e amar não tem certo ou errado.

Isso a arte nos ensina.

Foto: Ronald Mendes/ No Viva o Natal deste ano, Leo Roat foi um dos atores que deu vida ao Papai Noel

E se, por vários momentos é difícil entender o porquê fazemos arte, porém é impossível ignorar essa vontade que vem de dentro. Esse ar que precisamos respirar. E é preciso coragem para seguir respirando esses ares.

Acredito que você já ouviu alguém contar, dizer que precisa fazer algo com todas as suas forças, mesmo sem entender o porquê e não precisa ser arte, pode ser qualquer coisa.

Sentir-se impelido a montar um espetáculo, escrever um texto, fazer um show, dançar, filmar, fotografar ou a fazer tantas outras artes é assim e não é fácil. Nem na feitura em si, nem nas escolhas que isso traz para a outros aspectos da vida que cerca. Não é uma escolha fácil.

Exigem dedicação e uma demasiada dose de amor e loucura para percorrer seu caminho.

Entretanto, acredito que seja uma das mais belas atividades que compõem o panteão das potências e desejos que nos movem e nos fazem humanos.

Portanto, mesmo sem saber o porquê seguimos, nós seguimos. E quando menos damos por conta já estamos apresentando para outros algo que construímos, e colocamos pra jogo, pra diálogo, nossas visões de mundo, nossos pensamentos e parte de nossas vidas.

Quando menos nos damos por conta a primeira tentativa já passou, e estamos prontos pra tentar outra vez.

O que mais amo na arte é a ideia que de a arte é troca. São momentos trocados. Instantes efêmeros que nos compõem. Mas que de alguma forma tornam-se eternos.

Uma linha feita por pontos. Do mesmo modo que um desenho, ou um filme, ou um ano.

Agora vocês já sabem um pouco dos muitos anos que se passam dentro de um ano para um artista.

Que vocês possam ser artistas na dança infinita que continua neste ano que se aproxima.

Não há nada a temer.

Basta apenas ouvidos/olhos/corpos atentos aos sussurros dos mestres:

"Cada pessoa, um artista"* 

(Joseph Beuys)

Coragem e movimento. 

Feliz 201... (assim mesmo, no infinito)

Até o próximo encontro.

*tradução livre da frase: "Jeder Mensch ein Künstler" de Joseph Beuys, 1972 

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