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cultura

Da potência que temos no bolso

02 Dezembro 2017 13:04:00

Leo Roat fala sobre como ver e captar imagens com um olhar diferente


Olhar.
Pegar uma câmera, ainda que a do celular e colocar o mundo naquele frame.
Gravar um vídeo. 
Eis um ato talvez cada vez mais cotidiano, às vezes até banalizado, mas extremamente potente. 
Não somente pela feitura, mas pelos desdobramentos que pode causar.
Reenquadrar nosso particular e possibilitar sentido aos olhos de outros, por meio da nossa sensibilidade e olhar.
Nos últimos meses, dei aula de direção audiovisual (com produção quase inteiramente feita com celulares), a maioria da turma até que estava acostumada aos equipamentos e acessórios (dos celulares e de câmeras profissionais), não se assustava com eles.
Mas também, estava acostumada a velocidade da vida contemporânea, dos afazeres rápidos e práticos, dos dedos ágeis, do não firmar o olhar o tempo suficiente para construir sentido ao que se via e fora captado pelo outro lado da lente. 

Não pensavam em construir imagens indo contra a "programação" do dispositivo fotográfico/audiovisual, não percebiam a delicadeza e o poder narrativo de construção imagética à contrapelo.
Se estavam acostumados com os equipamentos, as redes sociais, e com a quantidade de informação audiovisual que consumiam em seus aparelhos mobile, talvez não estivessem mais acostumados ao olhar atento, ao respirar e perceber imagens cotidianas como imagens fantásticas.
Não estavam acostumados ao ato de com-por (assim mesmo, com hífen) o que iriam colocar no mundo por meio de audiovisual.
Porém, aos poucos, nos diálogos das aulas, nas trocas entre si, em trabalhar o olhar pelo pequeno aparelho, mundos inteiros se abriram.

O trabalho que eles começaram a desenvolver com e sobre esses aparelhinhos que carregamos no bolso, começaram a produzir sentido e eles puderam ver que podem modificar profundamente o modo como produzimos, interagimos e criamos imagens, utilizando apenas o que carregam(os) conosco.
Por que fazer teatro hoje em dia?
Acredito que você que está lendo esta coluna também possui um celular capaz de produzir vídeos. E não se preocupe se ele grava em 4k, se faz superslow. Preocupe-se com o potencial do seu olhar e tudo o que você pode produzir com ele. É você e não o seu celular que importa. Técnicas são aprendidas, olhares são evolução, aprendizado.

Nos últimos tempos tenho me perguntado quantos olhares maravilhosos e potentes estão por aí. Quanta capacidade de produção audiovisual qualificada e com capacidade de conversar com as pessoas não está sendo aproveitada nesse mundo cheio de dispositivos/ferramentas que permitem aos seus usuários gravar, editar, compor trilhas/sons, postar/compartilhar e consumir audiovisuais.
Quanto de cultura, de novos e outros possíveis mundos, de interação e diálogo/vida não estão sendo desperdiçados por não gravarmos eventos/pessoas/lugares com nossos celulares de forma mais inventiva ou concentrada?
Não gravar por gravar, mas produzir e criar.
Todas as imagens têm poder, inclusive as gravadas sem tanto apreço.
Mas, a contiguidade espacial e de identificação de uma imagem audiovisual que foi "meditada" e considerada é da ordem do empático e do intersubjetivo, é especial. Tem potência.
Não é simplesmente do compor, como quem vai na prateleira pega coisas de caixinhas (formas e formatos num control C/control V infinito) e arruma, ordena para que seja simplesmente belo.

Com-por imagens, misturar olhares, visões sobre coisas, formas, objetos é jogar, é com-partilhar autoria. É colocar-se com o outro em posições que mudam de lugar e função na criação de um audiovisual. E por isso mudam nossa visão de mundo. Por isso o que vemos nas imagens em movimento podem nos movimentar tanto.
Precisamos perceber que nossa criação com o celular pode ser mais do que algo banal, pois já faz alguns anos que passamos a carregar conosco um dispositivo de produção, significação e comunicação de audiovisual com o mundo. E não estamos tirando, ao meu ver, o melhor proveito disso.
Quando você abre câmera, o que está no outro lado da lente, é para além do que você vê, mas parte do que você fala e do que você ouve.
É modo de iniciar um diálogo. É conversar com quem verá o mundo com você.
Não se trata de pura objetividade, de retratar a realidade como ela é (visto que isso é impossível). Mas sim, abrir um ponto de vista importante no mundo, o seu.
É, por meio do seu celular, que você pode colocar o seu modo de olhar e registar o mundo em audiovisual, é por meio do seu celular que você pode com-por diversas realidades.
Imaginem a potência de um mundo assim, de câmeras no bolso e olhares minuciosos. Eis uma das potências do audiovisual no contemporâneo.

Abrir câmera, selecionar o que ficará no quadro, e saber que o que está na frente da câmera ficará, é mais importante que o equipamento que você está usando para registar aquelas imagens.
Precisamos não nos deixarmos levar pelo entusiasmo das maravilhas tecnológicas, que se renovam a cada ano.
Há que se renovar o olhar mais que equipamentos.Há que se ter calma e paciência no que vamos capturar. E há que se ter, principalmente, sapiência pra saber que estamos a escolher e recortar o mundo o tempo todo, em ato ativo e não passivo de significação.
Poderá soar uma obviedade banal o que direi agora, mas: quando você está gravando uma coisa, está deixando de gravar outra.
E mesmo que esta coisa gravada tenha inúmeras possibilidades de construção de sentido, esta coisa que você gravou é esta coisa, e não outra.
Portanto, ao sacar seu celular e capturar imagens, é preciso estar vigilante. Escolher imagens e enquadramentos com olhos atentos.Registrar tudo com retinas cuidadosas. Não só as mazelas do mundo, mas as poesias.
Produzir audiovisual é forma de conexão com o presente. É exercício de vida; é estar ali jogando naquele espaço-tempo e viver com o que acontece ao seu redor.
Fazer audiovisual é criação de uma zona de poética diversa, e um potente falar ressonante.

Saí com a certeza das aulas que as imagens produzidas (com celulares) ao término do curso já permitiam um sonhar com outras cores, outros olhares, já criavam outras com-posições, já não eram tão descompromissadas e banais.
Já eram outros modos de ver, não mais impossibilitados pelo véu da velocidade e descuido com a capacidade do equipamento que levam consigo cotidianamente.
As produções audiovisuais desse porvir potente de imagens construídas com o mobile serão visões que ajudarão a mim e a outros tantos viver no mundo de forma mais plural, pois conheceremos outras realidades.
Não banalizem ou desperdicem a potência do audiovisual que está no bolso de vocês.
Até o próximo encontro.

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