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Cronistas do Diário

A história e o bolão dos deputados

16 Abril 2016 00:00:00

MARCELO CANELLAS
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Este é um fim de semana histórico. Mas, mesmo sem saber o resultado da votação do impeachment, sinto apenas uma melancolia imensa. Chegamos aqui divididos como nunca estivemos, intolerantes e sectários como jamais fomos. Mas isso não é o pior. Nosso destino, o rumo que o país tomará a partir do horizonte de poder que se definirá, está para ser decidido pelo mais medíocre, corrupto e fisiológico parlamento da História do Brasil.

A imagem do atual Congresso Nacional é, para mim, fielmente retratada pelo bolão do deputado Paulinho da Força. Esse parlamentar – que responde a processos por formação de quadrilha, improbidade administrativa, falsificação de documento particular, falsidade ideológica e estelionato – circulava, esta semana, abordando seus colegas com uma oferta:

– E aí, quer assinar meu bolão? É 100 paus!

Isso mesmo. Na quinta-feira passada, o deputado Paulinho da Força, da bancada paulista do partido Rede Solidariedade, já tinha conseguido recolher R$ 2,5 mil para o bolão do impeachment. Na lista, três colunas tinham de ser preenchidas. Em uma delas, o deputado colocava o seu nome. Nas outras duas, a quantidade de votos a favor e contra o afastamento de Dilma. Ganhará o dinheiro quem acertar o placar. A "brincadeira", num episódio cuja seriedade exigira o mais absoluto decoro e respeito de todos nós, mostra o nível dos políticos que enviamos para Brasília.

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Esperar que essa gente encare com seriedade os dilemas do Brasil é pedir demais. Como é que se pode pedir respeito cívico a parlamentares que sequer respeitam a lei? Um levantamento da organização não governamental Transparência Brasil mostra que, dentre os 513 deputados da Câmara, 303 são investigados por algum crime. No Senado, o número também ultrapassa os 50%: 49 dos 81 senadores estão envolvidos em investigações. Se ficarmos apenas na comissão da Câmara que aprovou a abertura do processo contra a presidente, mais da metade terá de se explicar à Justiça. Dos 65 deputados da comissão, 37 enfrentam acusações de corrupção e outros crimes.

Quero deixar claro que acho o governo da presidente Dilma um desastre. Sua catastrófica política de alianças, baseada no apoio dos fisiológicos, que agora a abandonam sem meias-palavras, impediu a transformação social que se esperava de um governo de bases populares. A impopularidade da presidente, aliás, é uma das causas do desembarque em massa de seus ex-aliados. Mas é muito difícil encontrar legitimidade no julgamento de uma chefe de Estado que ainda não é ré, e não foi indiciada nem denunciada em processo algum, por um Congresso em que metade de seus integrantes responde a inquéritos policiais e a processos judiciais. Sim, escreveremos mais uma página da História neste domingo. Só acho que o país merecia entregar a caneta a quem estivesse com as mãos limpas.

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